ESPAÇO ABERTO
SOS Saúde
Chamou-me atenção situação delicada que vive o ator Reynaldo Gianecchini ao descobrir que está com um câncer linfático. Realmente, vislumbrar o limite da vida por meio do diagnóstico de uma doença grave é muito difícil para qualquer ser humano.
Imediatamente, recordei-me de tantos Josés, Marias e Joãos que conheci durante minha ainda curta vida profissional como médico. Assim como Gianecchini, esses sujeitos também enfrentaram diagnóstico de doenças graves, algumas fora de possibilidades terapêuticas (quando a medicina atinge seu limite contemporâneo).
Reynaldo foi manchete de telejornais, programas e jornais impressos e virtuais. Linda comoção e, sem dúvida, merecida. Gianecchini está internado em famoso hospital de São Paulo, um dos melhores do país, com todos recursos à sua disposição para o melhor tratamento possível. Um telejornal também noticiou que alguns exames estariam sendo confirmados no exterior.
Já os Josés, Marias e Joãos não foram manchetes em meios midiáticos. Esses queridos sujeitos de minhas lembranças viveram realidade semelhante, mas com circunstâncias totalmente diversas. Foram vítimas de diagnósticos tardios das enfermidades que os acometiam e, por isso, delas padeceram. Alguns sem possibilidades terapêuticas, mas em casos de doenças potencialmente tratáveis. Dificuldades de acesso aos serviços de saúde, demora em agendamento de consultas, exames e procedimentos e, em alguns casos, indisponibilidade de acesso a tratamentos mais eficazes por limitações dos sistemas público e privado de saúde.
Casos como esses acontecem todos os dias, assim como de Gianecchini. Mas, gostaria que esses também fossem manchete de telejornais, por exemplo, consigo imaginar: ''Boa noite! Hoje, falaremos do sr. João, morador de uma cidade do interior, que hoje recebeu diagnóstico de uma doença grave, já fora de possibilidades terapêuticas, depois de aguardar por quase dois anos em filas de exames e consultas''. Talvez, a dor de seus familiares, que também os querem bem, que os têm como arrimos de família, seja ouvida pela sociedade e autoridades civis.
Não há motivações políticas. É um desabafo. Sou médico, talvez novo demais, talvez ainda pouco experiente demais para conviver com essa situação. Quando não há o que fazer, quando chegamos naquele extremo da medicina em que a doença cursou sua história até o limite das possibilidades terapêuticas, vive-se, inevitavelmente, sentimento de ''perda'' ou de ''derrota'', fomos vencidos por essa enfermidade. No entanto, não se trata disso nesse momento. Hoje o pior revés a que se assiste, aparentemente cada vez mais frequente, é para o que se poderia ter feito e não foi, seja qual foi percalço que distanciou o sujeito de um desfecho mais feliz quanto à enfermidade que o acometera.
Senhoras e senhores, peço, humildemente e sinceramente, a quem detém poder e possibilidades de transformar a realidade, no que pode se tornar a maior contribuição de nossa geração às demais que virão: urge garantir aos cidadãos o direito universal à felicidade como ser humano. Sim, felicidade é algo muito maior, sem dúvida. Mas, seria lindo se começássemos por garantir o direito constitucional à saúde em todos seus aspectos, pois sem acesso à saúde, nenhum ser humano jamais poderá ser feliz.
FLÁVIO H. M. SANT'ANNA é médico e mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Londrina





