ESPAÇO ABERTO
O legado das eleições de 2010
Em tempos de crise no governo estávamos acostumados a receber dos noticiários informações a respeito da criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs), geralmente mistas (abrangendo a Câmara dos Deputados e o Senado). No cenário atual, marcado por uma série de denúncias de corrupção, superfaturamento de obras e a ''queda'' de membros da cúpula do Ministério dos Transportes, as coisas acontecem de forma inovadora. Embora as denúncias sejam graves e a demissão do ministro da pasta e de mais de 20 funcionários trazer a presunção acerca da existência de provas a respeito da corrupção, o Congresso provavelmente não conseguirá instaurar uma CPI sobre o caso.
Isso porque a base de oposição não representa no Governo Dilma nem mesmo um terço da composição do Congresso Nacional. Assim, a oposição, a maior interessada no avanço das investigações dos escândalos no governo, não consegue obter o quórum de assinaturas necessário para a instauração da CPI. Tal situação tende a enfraquecer a democracia no país. Isso porque um Congresso composto por ampla maioria governamentista acaba perdendo muito de seu caráter fiscalizatório, assumindo posições que regra geral são favoráveis ao governo. Isso permite que o Executivo exerça seu poder sem o ''freio'' que a Constituição delegou ao Legislativo.
Isso é preocupante, principalmente se observarmos os exemplos que visualizamos em nossos vizinhos na América Latina, cujos governos apoiados por ampla base de congressistas vêm conseguindo legalizar situações que flagrantemente ferem os ideais democráticos. Não havendo como alterar a herança deixada pelas eleições de 2010, cabe agora à população exigir daqueles em quem confiaram seus votos que tomem posições condizentes com o interesse democrático, independentemente da questão partidária, porque só assim haverá um fio de esperança na continuidade do desenvolvimento de nosso país.
FELIPE AUGUSTO MAZZARIN DO LAGO ALBUQUERQUE é advogado em Rolândia
A legião dos indispensáveis
Ler Célia Musilli é como navegar por águas turbulentas, porque elas causam agitação e nos põem inquietos, e isto afasta a sonolência em que nos deixamos embalar. Não inquietação doentia, mas a que nos instiga e nos faz pensar. E pensar nos leva a descobertas da alma e nos induz à ação, a inevitáveis deveres e à responsabilidade. Porque só navegar por águas serenas tem o atributo de ser confortável mas nos subtrai a oportunidade da excitação e do experimento. (Refiro-me aqui ao artigo dela na Folha2 de domingo).
Os grandes atrasos da humanidade se deveram à inércia dos que se deixaram conduzir por líderes desinformados, tiranos ou insensatos, porque assim não precisaram pensar. Estes preferem as águas calmas e os que pensem por eles, e nessa comodidade ficam entorpecidos e atrofiam a coragem e a faculdade de decidir. A paz dos adormecidos é improdutiva e todos temos com a vida um compromisso.
Sim, Celinha, a febre da criação reside no código genético dos pensadores. E quem pensa e nos leva a pensar forma a legião dos indispensáveis no laboratório terreno em que vivemos. Pode-se alcançar a paz na agitação das ideias. Não naturalmente a agitação das guerras e das nefastas ambições e disputas. Uma chuva cósmica precipita-se incessantemente sobre as mentes humanas, esparramando sons, poemas, belos escritos, magistrais obras de arte, fórmulas científicas, alertas e inspirações mil, mas que só chegam aos que estão despertos e receptivos. Não há mentes privilegiadas, mas mentes sintonizadas.
Essas emanações obviamente levam pessoas a perturbações e até ao delírio. Benditos os que perturbam pela sedução do que dizem e fazem. Sim, Celinha, não lhe é possível desmobilizar as forças que batem à sua porta, porque há uma legião de seres dos planos mais altos que a rodeiam, sintonizados em sua frequência, e eles não desperdiçam um agente já pronto e valioso como você. Imagine borboletas alegres e multicoloridas descrevendo voos em torno de uma flor.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





