Um amigo pioneiro reside há setenta anos no mesmo casarão com pomar de jabuticabas no Centro de Londrina. Mais ainda, conserva em frente à moradia o passeio original de blocos de pedras quadradas assentadas em diagonal. Em conversa de portão, o pioneiro informa que a pedra basalto foi colocada por um pedreiro conhecido da família em 1942. Numa Londrina de pó e lama, logo o mesmo tipo de serviço seria requisitado e executado em outras partes da cidade.
Depois de setenta anos de uso, as pedras cinza escuro estão bem ajustadas e apresentam um leve desgaste onde as pessoas caminham com maior frequência. A contra luz desses dias de inverno, refletem as marcas do tempo e conservam ainda assim a dignidade própria de um material natural, a pedra.
Em várias calçadas do Centro da cidade vemos trechos com pisos de pedra dos anos quarenta, mantidos pelos proprietários ou emergindo com o desgaste da camada de concreto sobreposta. Lembro de trechos nas ruas Minas Gerais, Mato Grosso, Sergipe e Souza Naves, mas devem existir muitos outros locais.
Um trabalho de revitalização de ruas poderia ser assim, quase um trabalho de arqueologia urbana. Trazer à tona um passado londrinense que aflora a cada marretada. Preservar como marcas da passagem do tempo os trechos de calçadas de pedra em Londrina, as camadas da história.
Dias atrás descobriram sob o petit pavê que está sendo arrancado na Praça Gabriel Martins alguns desenhos de flores azuis de cerca de dois metros de diâmetro, confeccionados em cimento com pigmento. Fiquei admirado em saber que, por ocasião da implantação do Calçadão original em 1977, o pessoal teve a prudência e sensibilidade de manter intactas partes do piso pré-existente.
Falando em pedras, inevitável insistir sobre o petit pavê do Calçadão de Londrina. Afinal, o que é importante no Calçadão sob o ponto de vista do patrimônio histórico? São as pedras brancas e pretas, a técnica de colocação das pedras ou os motivos geométricos? Respondemos por partes. A pedra para o petit pavê pode ser adquirida no mercado ainda hoje e não é um material raro ou artesanal. A técnica de fazer e reconstituir o piso em petit pavê ainda existe. O motivo geométrico de inspiração carioca é marcante, mas não totalmente inovador.
Podemos afirmar, portanto, que a utilização de pedras brancas e pretas, a técnica de assentamento e os motivos geométricos, associados aos 34 anos de permanência no lugar, o Calçadão da Avenida Paraná, é que resulta em sua significância enquanto patrimônio. Sob essa ótica, as pedras retiradas do Calçadão não têm o valor de fragmentos preciosos de um patrimônio histórico destruído, nem tem significação maior reconstruir outras calçadas reutilizando as pedras ou reproduzir os motivos geométricos naquele ou em outro local. Trata-se simplesmente de reutilização de material ou possível citação estética.
Melhor seria realizar a manutenção contínua e preservar o petit pavê para durar outras tantas décadas no próprio Calçadão, como referência histórico-cultural e marca do lugar.
No noticiário recente leio que no Rio de Janeiro estão retirando o piso de concreto em locais como a orla da lagoa para a recolocação de pedras portuguesas ou petit pavê. Londrina deveria considerar como prioridade o tombamento do Calçadão com o que resta do piso petit pavê entre a Avenida São Paulo e a Rua Minas Gerais, no entorno da praça da matriz. Afinal, somos o que pisamos.
HUMBERTO YAMAKI é arquiteto e docente da pós-graduação em Geografia na Universidade Estadual de Londrina

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