ESPAÇO ABERTO
Dia do Senhor
É simplesmente surpreendente o fato de que, em pleno início do século XXI, ainda surjam questões tão irrisórias como a confusão entre o sábado e o domingo como Dia do Senhor.
O fundamentalismo bíblico deixou-nos grandes tristezas ao longo da história. E o que é pior fez com que membros de um único corpo se dividissem. Compreendo claro está que o valor do ''Sabbat'' na literatura bíblica seja de grande relevância para os cristãos. Só que nos encontramos numa sociedade aberta e dialogal, razão pela qual engrandecer o sábado e condenando o domingo não é outra coisa que responder de forma agressiva e imatura ao que o próprio Cristo teria dito aos seus interlocutores: ''Eu sou o senhor do sábado''.
Precisamos antes de mais nada resgatar o ''Dia do Senhor'', isto é o verdadeiramente importante. Seja segunda ou sábado, domingo ou quarta, num dia determinado do tempo, ''Deus descansou''.
As interpretações e a hermenêutica com a qual o pastor da Igreja Adventista, Vilson Souza Lima, trata o domingo ou o sábado no artigo ''Sábado está na Bíblia, o domingo não'' (Espaço Aberto, 08/08) são meramente cronológicas.
Pergunto para este irmão, de que tempo, ou melhor, de qual tempo está falando o texto sagrado? Do cronológico, marcado por dias e noites ou do ''Kairotico'' que está marcado por eventos, momentos e circunstâncias através das quais Deus nos fala?
Mais importante do que citar um dado completamente atravessado como aquele do imperador Constantino, seria muito melhor questionar a sociedade de consumo e de mercado que pretende com seu esquema neoliberal, escravizar nossos operários e funcionários de baixo escalão a não possuir um dia todo para dedicá-lo ao Senhor Deus.
Isso me parece um escândalo! Desfavorecer à custa de uma economia a possibilidade que nós seres humanos temos de reservar um dia para nossa vida transcendental, religiosa e familiar. No dia do Senhor a comunidade toda se reúne, a comunidade toda partilha da mesma fé e do mesmo pão.
O quanto vão perder as lojas, multinacionais e indústrias, eu não sei, mas o que sei é que perderemos o que outras sociedades como a canadense, a norte-americana ou a europeia já perderam: a família.
É possível que os senhores da economia não tenham a capacidade de reconhecer abertamente o quão distantes nos encontramos da verdadeira e perpétua possibilidade que temos de virar o curso da história que nós mesmos estamos lavrando. Mas nós - opinião pública, cidadãos e cidadãs - não podemos permitir que o silêncio impere e que nossas vozes não sejam ouvidas.
Estamos prestes a começar a semana da família cujo tema é ''Família, pessoa e sociedade''. Devemos elevar nossas vozes, nossas atitudes e, especialmente, nosso coração ao Deus da vida, para que ofereça a todos a graça de celebrar semanalmente um dia específico, no qual reunidos no seu amor, possamos partilhar nossas dores, angústias e esperanças e caminhar no caminho da vida.
Seja qual for a religião que você pratique, um dia reservado para Deus é essencial para vivenciar a sua fé e crescer em comunidade. Não perca a oportunidade que Deus lhe deu para louvar e festejar com Ele o Domingo, ''Dia do Senhor''.
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é professor da PUC e sacerdote da Arquidiocese de Londrina





