Dia mais triste
Qual o dia mais triste da vida de uma pessoa? Provavelmente é o dia do falecimento de um parente próximo - pai, mãe, irmão, irmã, filho, filha ou cônjuge. E quando a pessoa não sente nenhuma tristeza pelo falecimento de seu parente próximo? Então, certamente, deveria se sentir triste por sua falta de apreço e pela incapacidade de sentir a emoção apropriada.
Ontem, dia 8, foi o Tishá BeÁv, o 9º dia do mês Judaico de Av. É o dia mais triste do calendário dos israelitas. O que nós, judeus, perdemos nessa data? O que ela significa para nós?
Em 1967, paraquedistas israelenses capturaram a cidade velha de Jerusalém das mãos dos árabes e abriram caminho até o muro das lamentações. Muitos dos soldados religiosos, tomados de emoção, encostaram-se no muro, orando e chorando. Um pouco afastado deles estava um soldado não religioso que também chorava. Seus colegas perguntaram: ''Por que você chora?''. O soldado respondeu: ''Choro por não saber por que deveria chorar!''.
Tishá BeÁv é observado como a data de lamentação pela destruição dos dois templos sagrados de Jerusalém. Há uma grande perda em ambos acontecimentos. Com eles, perdeu-se o sentimento da manifestação divina. O templo era um local de orações, santidade e milagres a céu aberto. Era a área mais importante da nação judaica do passado, o ponto focal de sua identidade. Três vezes ao ano todo judeu ascendia ao templo. Sua existência permeava todos os aspectos da vida judaica: o planejamento do ano, o lado para onde a pessoa se voltava para rezar, onde trazia certos dízimos, onde recorria por justiça ou para estudar a Bíblia judaica, a Torá, etc.
Nesse mesmo dia, através da história, muitas tragédias aconteceram com o POvo judeu, incluindo:
1- O incidente com os espiões difamando a terra de Israel, com o consequente decreto para vagarem pelo deserto por 40 anos.
2- A destruição do primeiro templo, em Jerusalém, por Nabucodonosor, rei da Babilônia.
3- A destruição do segundo templo, em Jerusalém, pelos romanos, no ano 70 da era comum (E.C).
4. A queda da cidade de Betar e o fim da revolta de Bar Kochvá contra os romanos, 62 anos depois, no ano 132 E.C.
5. Os judeus da Inglaterra são expulsos em 1290.
6. Iniciam-se as primeiras cruzadas. Dezenas de milhares de judeus são mortos e muitas comunidades por toda a Europa completamente destruídas.
7. Os judeus da Espanha são expulsos em 1492, dando início à inquisição espanhola.
8. A primeira Guerra Mundial irrompeu em 1914, quando a Rússia declarou guerra contra a Alemanha. O ressentimento alemão após ter sido derrotado criou o palco para o holocausto.
9. Começa a deportação dos judeus do gueto de Varsóvia.
Durante toda a história judaica, passamos por holocaustos, pogroms, cruzadas e outros massacres. Isto, por si só, já nos faria despertar a seguinte pergunta: Por que nossos ancestrais insistiram tão persistentemente em se manter na fé que receberam de nossos patriarcas quando, poderiam ter se convertido e salvado suas vidas e a de seus familiares? O que eles sabiam que não sabemos? O que precisamos então saber?
Tishá BeÁv tem por meta chegar o mais próximo possível da resposta a essas questões. É um dia de jejum com duração de um dia inteiro de introspecção, fazendo um balanço espiritual e corrigindo os caminhos, o que em hebraico é chamado Teshuvá, o retorno para o bem e a honra. A ideia é minimizar o prazer e fazer o corpo sentir o desconforto que é devido à alma em relação a tragédias como essas.

KALMAN PACKOUZ é rabino da comunidade Aish Hatorá em Miami (EUA)

mockup