Terapia-alvo chega à hepatite C

Recentemente a imprensa noticiou que o FDA, órgão americano que controla alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, aprovou dois medicamentos de uma nova classe, os inibidores de protease, para o tratamento da hepatite C: boceprevir da MSD e telaprevir da Janssen. O primeiro acaba de receber aprovação do Comitê de Medicamentos de Uso Humano (CHMP) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), para comercialização na Europa.
Acredito que, além de comemorar a nova descoberta, é preciso informar e conscientizar a população sobre os reais benefícios dessa nova terapia e sobre o conceito de vulnerabilidade diferenciada da doença. Enquanto há um volume de investimento considerável e grande conhecimento acerca do HIV, para a hepatite C, que acomete pelo menos cinco vezes mais pacientes, o subdiagnóstico e a falta de investimento é a regra nos EUA. O mesmo ocorre no Brasil, como denota nossa percepção.
Transmitida principalmente por sangue contaminado pelo HCV (vírus da hepatite C), é uma doença ''sem cara''. Prova disso é que atualmente a maioria dos portadores da doença está na faixa dos 40 aos 50 anos, e a grande maioria desconhece o fato de estar infectada. Esses sequer cogitam a possibilidade de fazer o exame para a detecção da hepatite C, facilitando a progressão da doença, que em 80% dos casos evoluem para uma infecção crônica e, em muitos casos, cirrose e até câncer hepático.
A primeira terapia combinada para o tratamento da hepatite C, desenvolvida no início dos anos 2000, consiste em injeções de Interferon peguilado e cápsulas de rivabirina. Até hoje utilizada como tratamento padrão, a terapia combinada é ineficaz em cerca de 50% dos casos tratados.
Agora, uma década depois, graças à descoberta dos inibidores de protease, as chances de cura dos pacientes que não obtiveram sucesso com a terapia atual ou que nunca foram tratados podem ser aumentadas em até 70%, por meio da terapia tripla (associação dos inibidores de protease ao tratamento padrão).
O grande diferencial entre as terapias é que, ao contrário do Interferon peguilado e da rivabirina, os inibidores de protease agem diretamente no vírus causador da hepatite C. Porém, isoladamente, nenhum desses medicamentos funciona de forma plena, razão pela qual a associação é necessária.
A aprovação pelo FDA e pela EMA devem auxiliar a avaliação da Anvisa, agência responsável pelo registro de remédios no Brasil, e acelerar o processo de aprovação dos novos inibidores de protease no país.
Vale ressaltar ainda que, mesmo depois de aprovada, possivelmente a terapia tripla não será imediatamente adotada como política pública de saúde para o combate à hepatite C no Brasil. Um dos fatores limitantes para isso é a falta de uma rede de assistência estruturada e pronta para acolher todos os pacientes. Outro fator é o custo dos novos medicamentos, ainda indefinido.
Mesmo assim, acredito que, a médio e longo prazos, essas terapias se mostrarão vantajosas do ponto de vista da farmacoeconomia. Isso porque, a partir do momento em que a terapia tripla aumenta o percentual de cura da doença, contribui para a redução do número de casos crônicos e de todos os desdobramentos possíveis advindos deles, principalmente a cirrose hepática, o câncer de fígado e a demanda pelo transplante hepático. Portanto, indiretamente, também contribui para a redução dos gastos públicos com esses pacientes.

EVALDO STANISLAU AFFONSO DE ARAÚJO é infectologista, mestre e doutor em Moléstias Infecciosas e Parasitárias pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

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