ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de agosto de 2011
Fábio César Alves da Cunha 
Nunca se perdeu tantas vidas no trânsito como agora. Cresce o número de acidentes de trânsito nas cidades brasileiras. O sonho de ter um carro ou uma moto se torna cada vez mais possível. Acontece que esse aumento significativo na frota de veículos não é acompanhado pelo aumento da infraestrutura em rodovias, vias de circulação e no planejamento viário das cidades que historicamente sempre foi precário, deixado em segundo plano ou subtraído das agendas governamentais.
Em Londrina, só na PR-445, o número de acidentes com motos e o número de acidentes fatais já são, até o mês de julho, quase os mesmos dos registrados em todo o ano passado. Uma manchete nos jornais diz que em doze horas três motociclistas perderam a vida na cidade de Londrina; o que dizer dos outros acidentes com carros, dos atropelamentos, dos feridos? Nesse ritmo, num futuro próximo, todos nós vamos ter alguma vítima do trânsito dentro de nossas casas.
Estamos convivendo num ambiente cada vez mais inseguro, numa guerra velada. Podemos a qualquer momento tanto matar quanto morrer na próxima esquina. As autoridades e as instituições pouco fazem. Um exemplo é a própria PR-445: se tivesse sido duplicada, muitos acidentes teriam sido evitados, mas ainda é um projeto distante. Quantos vão ter que pagar com a vida para que isso um dia ocorra? E a falta de viadutos?
Na mesma rodovia, entre Londrina e Cambé, mais precisamente entre os bairros Sabará e Novo Bandeirantes, uma área conurbada com tráfego intenso, os acidentes e mortes são uma constante. Um dos três motociclistas citados acima teve sua vida ceifada nessa localidade. A construção de um viaduto nesse local é uma necessidade imediata. Essa é uma obra que deveria estar sendo discutida pela Região Metropolitana de Londrina, já que o assunto se insere no âmbito metropolitano, mas essa instituição efetivamente nunca existiu e perdeu a pouca força que tinha no atual governo.
Por outro lado, somos bombardeados diariamente pelo mercado com ofertas para adquirirmos mais e mais carros e motos. Esses produtos deveriam vir com a tarja preta anunciando: ''Cuidado, isso pode matar!''. Como nas embalagens de cigarros, inclusive em suas infinitas e deslumbrantes propagandas. Mas o mercado não iria permitir, pois a indústria precisa produzir, o comércio vender e a mídia também lucrar.
Essa é a lógica do sistema em que vivemos, complementada com um transporte coletivo sucateado e um cidadão constantemente incentivado a fazer a opção pelo transporte individual em cidades com precária e insuficiente infraestrutura.
O resultado é essa guerra cotidiana que banaliza a vida; uma guerra temperada pela imprudência, pelo excesso de velocidade, pela falta de educação no trânsito, pela falta de fiscalização, pela impaciência da vida moderna e pela justiça débil que promove a impunidade: ''Você pode se embriagar, tirar a vida de alguém no trânsito, se recusar a fazer o teste do bafômetro, pagar uma fiança pífia e gozar seu processo em liberdade, a justiça lhe concede isso''.
O número de veículos, de acidentes, mortes, feridos, inválidos, aumenta. E mesmo assim nossos olhos continuam brilhando ao ver a propaganda dos novos carros. Estamos adquirindo armas legalizadas que vão aos poucos nos matando. Vivemos esta triste realidade. À população cabe não ficar inerte, mas ir para as ruas, exigir providências, obras necessárias e fiscalização.
Que as autoridades paranaenses possam olhar um pouco mais para esses problemas do trânsito nas nossas cidades, que podem ser amenizados com investimentos em duplicações, viadutos, ciclovias. Mas o que dizer de uma realidade onde a primeira e a segunda maior cidade do Estado, Curitiba (a capital) e Londrina, ainda não são ligadas por vias duplicadas, apesar de existir há mais de quinze anos um dos pedágios mais caros do País? Pobre realidade paranaense!
FÁBIO CÉSAR ALVES DA CUNHA é geógrafo e professor adjunto do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina


