Só a Polícia Judiciária?

''Sem deixar pingar'', tem-se que qualquer servidor público corrupto, truculento e arbitrário deve ser responsabilizado com rigor, sem possibilidades de impunidade. Concordo com o delegado Claudio Marques, da Polícia Civil do Paraná, quando disse no artigo ''A síndrome do 'capitão Nascimento''' (Espaço Aberto, 27/07) que ''policiais assassinos devem responder por seus crimes'', mas discordo da afirmação de que ''só a Polícia Judiciária reúne condições para fazer frente a essa insanidade''.
Não é somente a Polícia Judiciária que reúne condições para enfrentar a truculência, a corrupção, os atos de tortura, os assassinatos ou qualquer outra modalidade criminosa, embora tenha suas prerrogativas e deveres funcionais para tal. Outros servidores públicos, em diversos órgãos da administração pública, reúnem as mesmas ou melhores condições para esse enfrentamento.
Um policial corrupto, assassino, torturador, arbitrário, certamente, é algo insano, independentemente da instituição a que pertença. Essas atrocidades, calçando coturno ou sapato bico fino, devem ser combatidas com toda severidade, não como a ficção do filme ''Tropa de elite'', mas com a sensatez necessária e baseada na legalidade.
O filme ''Tropa de elite'', contudo, obra de ficção de excelente qualidade, trouxe à reflexão uma problemática recorrente e assustadora: a corrupção, a violência, o tráfico e o uso de drogas. Tanto no primeiro como segundo episódio, os seres humanos direitos são reféns da criminalidade. E somente quem está, efetivamente, nas ruas das cidades, nas matas e estradas, combatendo e prevenindo o cometimento de crimes é que, legitimamente, sabe e conhece a realidade dura e corrompida em que vivem os seres humanos direitos que estão à mercê dos bandidos das nossas metrópoles (pequenas, médias e grandes), sejam eles uniformizados, engravatados ou customizados. Aí sim conseguimos restringir a um grupo específico de indivíduos.
Sobre a ditadura (outro tema citado pelo delegado, lembrada em diversas ocasiões e nos mais variados contextos de uma ou de outra retórica) já não cabe comparações - as quais são perigosas e podem ser desastrosas -, pois a sociedade atual, plugada e atenta, sabe a polícia - civil e militar - que tem e nenhum cidadão está ou é impedido de externar seus pensamentos, opiniões ou ir a uma delegacia de polícia representar contra alguém ou alguma autoridade pública, isso sem citar o importante e valoroso papel do Ministério Público, do Judiciário e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outras instituições.
As polícias estaduais são corporações valorosas e centenárias, compostas por seres humanos de imenso valor e capacidade, os quais cumprem seu dever com coragem e destemor, cujos atos heróicos constatados em inúmeras ações meritórias não podem servir para embasar qualquer que seja a ilegalidade imaginada. A missão maior é a defesa da vida. Existem maus policiais aqui e acolá.
A vida é o maior bem de um ser humano, direito ou não, e deve ser zelada pelas autoridades públicas. Ocorre que os bandidos não têm esse pensamento no momento do cometimento de um delito. Matam, roubam, estupram, enganam e se apropriam dos bens e sentimentos mais importantes de uma pessoa, que espera que sua dignidade seja respeitada pelos seus iguais. Isso é insano! A Polícia Judiciária, assim como todos os órgãos que compõem o sistema de segurança pública, reúne condições para mudar este quadro e moralizar o exercício da atividade pública.
O que importa não é o mastro em que a bandeira vai ser hasteada, mas que ela fique a tremular lá no alto. Que a missão seja cumprida, não importando o cumpridor, nem tampouco se quem vai ser punido severamente veste coturno, sapato bico fino ou sandálias. Seja na ficção ou na realidade, a luta deve ser para o bem, independente da família que vai chorar pelo seu querido preso ou morto no enfrentamento da lei. Avante.

MARCOS ANTONIO TORDORO é comandante da 1 Companhia de Polícia Militar de Rolândia

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