ESPAÇO ABERTO
'Minha bolsa minha vida'
Não se trata, infelizmente, de uma efetiva mudança por parte do governo federal na política de condução do programa de bolsas. Entretanto, recentes medidas adotadas merecem destaque. Isto porque são um acerto econômico, ambiental e científico inteligente, que supera a visão arcaica com a qual, por 16 anos, FHC e Lula conduziram seus programas. Menina dos olhos do governo federal, o Programa Minha Casa Minha Vida preconiza que todos os projetos de casas e prédios a serem financiados adotem sistemas de aquecedores solar de água. Nas famílias mais carentes o uso do chuveiro é responsável por 30% da energia consumida. O uso de tais equipamentos reduz o consumo energético nessas residências em até 80%. O próprio governo, que pode usar os valores economizados em outros programas. Tamanha economia representa ainda menos hidrelétricas, menos termelétricas, menor poluição.
Apesar de o país ter em média 280 dias efetivos de luz solar por ano, os coletores estão presentes em apenas 1,5% dos lares brasileiros. Ocorre que, se famílias carentes não compram lâmpadas fluorescentes porque lhe são muito caras, não é difícil imaginar que coletor e aquecedor solar estejam fora de suas realidades. Apesar de ter o valor amortizado entre 2 e 3 anos é essencial a participação governamental concedendo ou subsidiando aquisição e instalação dos equipamentos. Em São Paulo algumas empresas têm financiado esses equipamentos. Se a iniciativa privada pode, por que não o governo? São formas inteligentes de transferência de renda, que superam uma antiga crítica: aquela em relação ao ''dar o peixe ao invés de ensinar a pescar''.
Inteligente também foi a determinação do governo (após anos de discussão)
a completa retirada de todas as lâmpadas incandescentes do mercado, até junho de 2016. Há 300 milhões delas no país, todas dotadas de uma ineficiência absurda, pois apenas 5% da energia que chega a elas são transformados em luz, os outros 95% se dissipam como calor. Presentes em 80% dos lares brasileiros, consomem 15% da energia nas residências dos menos favorecidos. O governo pode, de forma ainda mais acertada, conceder subsídios para que essa substituição ocorra. No mercado há modelos 6 vezes mais eficientes e com vida útil que brevemente será até 50 vezes maior.
Destaque também para o Projeto Caminho da Escola, pelo qual o governo doou 30 mil (dentro de uma meta de 100 mil) bicicletas devidamente equipadas para que crianças de comunidades carentes possam ir à escola. Pelas características de mobilidade urbana, redução da poluição e atividade física as bicicletas fazem parte de toda política ambiental sustentável.
Por último, mas não menos importante, o governo federal acaba de lançar o Bolsa Verde. É, dentro do programa de combate à miséria, um Programa de Apoio à Conservação Ambiental. Visa a atender 76 mil famílias pobres da área rural, até 2014, com a transferência trimestral de R$ 300 para cada uma delas. Sob a coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente a concessão da bolsa estará vinculada a diversas atividades de preservação ambiental.
Porém, governo e ''bolsistas'' precisam lembrar que não se adquire uma bolsa para tão-somente nela armazenar algo, mas para transportá-lo de um lugar a outro. É assim com os objetos, é assim com as bolsas de estudos. Nesse contexto são como as escadas, não se adquire uma escada para nela ficar, mas para se chegar a algum lugar. O governo começa, ainda que timidamente, a olhar de forma diferente para o programa de bolsas. Medida inteligente. Afinal, olhar para as bolsas como fizeram os governos anteriores, como mera fonte direta e imediata de votos é reviver o clichê segundo o qual quando se aponta no céu a Lua linda e brilhante, o tolo olha atentamente... para a ponta do seu dedo.
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e policial militar em Londrina





