ESPAÇO ABERTO
A síndrome do 'capitão Nascimento'
O filme ''Tropa de elite'', como ficção, de fato tem suas qualidades, porém só como ficção. O autor não imaginava os estragos que sua mensagem causaria aos que ainda insistem no caminho da violência como uma solução plausível para a questão da criminalidade. O filme conseguiu ridicularizar os defensores e militantes de Direitos Humanos, destacando ainda mais a falsa impressão de que são defensores de ''bandidos''. Depois, mostrou uma Polícia que age de acordo com os desejos de vingança do cidadão comum, que opinam com um conhecimento superficial do problema em foco. Ainda, cria uma imagem irreal, ao mostrar o capitão Nascimento como um homem adepto da violência e, ao mesmo tempo, incorruptível. E por último, estigmatizou ainda mais o usuário, apontando-o como o único culpado pela existência do tráfico.
Partindo desse raciocínio superficial, só existe o traficante porque existe o usuário. Da mesma forma, poderíamos dizer que, só ocorrem acidentes e roubos de veículos por culpa exclusiva das montadoras. Para os governantes relapsos e incompetentes, o filme foi uma maravilha. O usuário é o culpado, e pronto. Não se fala na falta de investimentos na segurança, não se fala no abandono da saúde, não se fala na falta de investimentos e falta de visão em matéria de educação. Nada. Só o dependente é culpado. Ele alimenta toda a rede de tráficos e, consequentemente, é também o responsável pelos altos índices de criminalidade.
No Paraná, com o sucesso do filme, criou-se também o Bope, e não demorou muito para os ''Nascimentos'' apareceram em todas as regiões. Não é preciso ser um observador atento para perceber que é muito elevado o número de jovens que ''lutam'' contra a PM ''até a morte''. Há um silêncio comprometedor da sociedade. Não basta a elaboração de um auto de resistência seguido de morte, os casos devem ser rigorosamente investigados. A Polícia Judiciária deve agir com rigor para evitar que execuções sumárias sejam catalogadas como simples resultado de ação policial.
O número de ocorrências de Curitiba, Foz do Iguaçu, Londrina e Maringá comprovam que os ''Nascimentos'' estão dispostos a provar a tese do ''ciclo completo'', ou seja, prender, julgar e executar sumariamente. Quase três décadas depois do fim da ditadura, os métodos continuam sendo os mesmos utilizados por aqueles militares que trilharam o caminho do crime e da violência. Prisões ilegais, torturas e execuções sumárias. Ainda há muitos saudosistas que travam uma luta insana contra os ''subversivos'' da sociedade atual, os negros, os pobres e os usuários de drogas.
Não importa o crime praticado, o infrator ao ser preso, deve ser imediatamente conduzido à uma Delegacia de Polícia. Autuar ou não o infrator, é decisão que só cabe ao delegado de Polícia, pois é a Polícia Judiciária, a primeira instituição a analisar juridicamente a legalidade da ação policial. As razões da não apresentação do preso, imediatamente, perante a autoridade policial, não é fato a ser ignorado, é fato a ser rigorosamente apurado.
Vivemos em um Estado democrático de direito e as leis devem ser cumpridas. Policial truculento e, ao mesmo tempo, honesto, é mera ficção, pois os agentes adeptos da violência, cedo ou tarde, se tornarão corruptos. Arbitrariedade e corrupção sempre caminham de mãos dadas.
A ação que está sendo executada pela Polícia Judiciária em Foz do Iguaçu, deve servir de exemplo. Policiais assassinos devem responder por seus crimes, e só a Polícia Judiciária reúne condições para fazer frente a essa insanidade.
Finalmente, depois de anos de inércia e propagandas enganosas, em matéria de segurança pública, começamos a trilhar um novo e promissor caminho. Não há mais espaço para torturadores e corruptos.
CLÁUDIO MARQUES é delegado de Polícia e membro da Comissão de Direitos Humanos ''Irmãos Naves''





