O Brasil está bem longe da Europa. São mais de 7 mil quilômetros de distância. O que poderia nos interessar as crises econômicas de Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha e outros? Existem dois pontos nesta questão. Um é a causa, outro são as consequências. Os remédios ministrados são amargos e afetam toda a população desses países. Aumento de impostos, redução de gastos públicos, privatizações, demissões de funcionários públicos, mudanças na previdência, desemprego, etc. Não devemos esquecer que o Brasil é um país globalizado e, como tal, tem sua economia vinculada ao resto do mundo. Se a Europa vai mal, mais cedo ou mais tarde, nós também vamos acabar sentindo as consequências destas crises.
Mas vamos analisar um pouco as causas. Sabe aquele amigo que vive acima de suas possibilidades financeiras? Ou seja, aquele que gasta mais do que consegue ganhar. Que só anda com carro de luxo, que tem TV de Led 3D, smartphone da moda, roupas de grifes e que banca tudo isto com cartão de crédito e financiamentos intermináveis. Pois é, com países pode acontecer exatamente a mesma coisa. Gastam mais do que produzem e rolam suas dívidas até onde for possível. Lugares maravilhosos, com muitos benefícios e economia sustentada basicamente pelo dinheiro público. Acontece que em economia não existe milagre. Apesar de não ser uma ciência exata, em economia dois mais dois continuam sendo quatro.
A Grécia, berço da filosofia moderna, terra de Aristóteles e de Platão, nunca conseguiu construir uma economia forte e realmente sustentável. Portugal também teve seu auge, principalmente no século XVI, época das grandes navegações. Por 300 anos explorou a sua rica colônia chamada Brasil. Mas também não soube aproveitar os bons momentos. Demorou demais para reduzir a burocracia e os gastos públicos, não se modernizou e também não conseguiu se manter competitivo. A Espanha, que há alguns anos era considerada a nova locomotiva da Europa, tem hoje taxa de desemprego próximo de 20%. Não se trata de pessimismo, mas de economia, de história e de estatística.
O mundo sempre passou por ciclos econômicos, alguns bons e outros maus. Grandes impérios acabaram justamente pelo deslumbramento de viver um padrão de vida incompatível e pela demora em se adaptar aos novos tempos. Com altos impostos e excelentes benefícios sociais e trabalhistas, esses países são muito bons para se trabalhar, mas foram esses fatores que levaram boa parte da produção e dos empregos da Europa para a Ásia. Os governos, para manter empregos e a economia em crescimento, gastaram o que tinham e o que não tinham, gerando dívidas impagáveis. Mas ao final, de um jeito ou de outro, alguém sempre vai ter que pagar a conta. Oferecer benefícios e gerar gastos é muito fácil. Mas cortar é bem mais difícil.
O Brasil vive um bom momento econômico, o país está crescendo. Mas este ciclo pode durar mais seis meses ou mais seis anos. A economia é dinâmica, depende de vários fatores e vai continuar seguindo seus rumos. A China, a Índia e os outros tigres asiáticos estão lutando com unhas e dentes para conquistar seu espaço nesse competitivo mundo globalizado. É preciso cuidado para não transformar o nosso país em uma futura Grécia. Devemos aproveitar o bom momento para enfrentarmos os nossos pontos fracos. Não podemos mais continuar postergando os problemas da carga tributária excessiva, da burocracia, da ineficiência dos gastos públicos, da falta de infraestrutura e outros temas importantes para o futuro da nossa economia.
Milagres, em economia, não costumam durar muito tempo. Precisamos fazer as mudanças e os ajustes necessários para que o nosso País cresça com consistência e possa conquistar e manter seu lugar no mundo globalizado.

DENILSON VIEIRA NOVAES é engenheiro especialista em gestão pública e servidor público em Londrina

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