Capital social e desenvolvimento
O conceito de desenvolvimento vem sofrendo fortes mudanças em decorrência dos insucessos dos modelos tradicionais amparados em parâmetros meramente quantitativos e economicistas. Dessa feita, definições como capital social vêm ganhando destaque ao buscarem entender a importância da cooperação, das relações de confiança e da capacidade de articulação de uma população como mecanismos fundamentais de promoção socioeconômica, capazes de superar, até mesmo, possíveis desvantagens naturais.
Nesse sentido, entende-se por capital social a capacidade de se estabelecerem relações duradouras de cooperação entre indivíduos de uma comunidade, alcançados através de laços de confiança e de articulação conjunta em projetos coletivos como: espaços culturais, projetos comunitários, clubes, ONGs, partidos políticos, sindicatos entre outros, fortalecendo-se a identidade, a relação de pertencimento, o afeto e a empatia entre seus membros.
A relação entre capital social e desenvolvimento, não é nova e remonta a períodos perdidos na história, como nos estudos de Alexis de Toqueville que relacionaram a virtuosidade da democracia americana do século XIX com a capacidade da população em articular a vida social em forma de associações variadas. Esse modelo garantiu a coesão social necessária ao exercício da cidadania e da participação ativa na esfera pública, resultando numa sociedade comprometida com o bem comum e numa economia vigorosa.
Robert Putnam, no final do século XX, fez um vasto estudo empírico sobre o desenvolvimento assimétrico entre as diferentes regiões italianas e constatou que a província de Emilia Romana apresentava os resultados mais expressivos em termos de desenvolvimento e de qualidade de vida. Como causa para esse desempenho virtuoso, o autor constatou naquela região a existência de uma sociedade civil mais organizada e ativa, fato que se expressava num número muito acima da média nacional de entidades associativas, como clubes, grêmios e organizações de serviços sociais diversos. Além do mais, percebeu um interesse acima da média em torno de assuntos cívicos veiculados na imprensa local, o que gerava discussão e engajamento em torno de temas de interesse comunitário.
Recentemente, Putnam fez um estudo sobre capital social nos EUA e constatou que os fatores apontados por Tocqueville no século XIX como exemplos de participação social, vêm-se fragmentando e sendo substituídos por valores individualistas e predatórios. Talvez, esta seja uma das principais razões das contínuas crises e escândalos por que vem passando o sistema econômico e social norte-americano.
Transpondo o conceito de capital social para a realidade brasileira percebe-se que há um traço típico muito acentuado em nossa cultura, que é a dificuldade em mobilizar a população em favor de causas coletivas, parece haver um desprezo pelo que é público, é como se ao ser público torna-se ''terra de ninguém'' e por isso desprezível. Precisamos fortalecer a participação cívica, através da intensificação do associativismo e da mobilização comunitária em prol de interesses coletivos, potencializando as ações do poder público e fazendo deste extensão da própria sociedade.

LUIS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Univeridade Estadual de Londrina

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