ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de julho de 2011
Gaudêncio Torquato <br> 
A explicação, que parece risível, é dada de maneira séria por autoridades: as obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016 não sofrerão atrasos. Vai dar tudo certo. Aos fatos: a Arena das Dunas, em Natal (RN), aguarda propostas de parceria. Outros empreendimentos estão em fase inicial. E mais: dos 12 estádios que serão construídos, 5 correm o risco de se transformar em ''elefantes brancos'' por falta de torcedores suficientes e pelos altos custos de manutenção.
A novela sobre a preparação do Brasil para sediar os dois maiores eventos esportivos mundiais segue um enredo que tem tudo para se tornar sucesso de público e de mídia, por exibir vasto painel do temperamento nacional. Abriga traços do caráter, a começar pelo desleixo, passando pela improvisação, entrando pelo jeitinho e chegando à malandragem, pela inferência de que o atraso no calendário de obras é algo deliberado. Teria o fito de driblar a montanhosa burocracia e, desse modo, livrar a licitação de projetos de complicações, liberar recursos de forma ágil e no fluxo adequado, garantindo a satisfação de todos os ''jogadores'' da copa preparatória. E assim o Brasil pode levar a taça de campeão de novo escopo da administração: ''a emergência programática''.
O Brasil foi escolhido para ser a sede da Copa em 30 de outubro de 2007. De lá para cá, em termos práticos o resultado fica próximo de zero. Sendo a paixão nacional, o futebol abre intenso foro de debates, acende fogueiras de vaidades e impulsiona visões conflitantes entre os atores envolvidos na organização do megaevento: times e torcidas, cartolas, cidades-sede da Copa, autoridades governamentais, políticos, empreiteiras e a formidável malha de prestadores de serviços. Cada qual quer tirar proveitos - e proventos - da gigantesca teia de interesses, sabendo-se que não haverá rigidez no controle dos orçamentos.
Lembre-se de que as obras para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, foram orçadas inicialmente em R$ 400 milhões. Acabaram em R$ 3,4 bilhões, deixando, ainda, extensos espaços ocupados por ''elefantes brancos''. E qual será o orçamento para os dois eventos? Uma incógnita. A decisão de tornar esse orçamento sigiloso - aprovada pela Medida Provisória 527, que cria o Regime Diferenciado de Contratações - faz parte da estratégia de evitar obstruções, o que, para uns (empreiteiros, por exemplo), seria medida de bom senso e, para outros (organizações não governamentais), brecha para a corrupção.
Na esteira da pressa, o risco Brasil sobe aos píncaros. Veremos na paisagem um portentoso conjunto de obras, algumas chamando a atenção pela pujança estética, mas, no obscuro limite entre os territórios do público e do privado, vicejarão sementes de improvisação, que produzirão colheitas de irresponsabilidade nas frentes das obras. Essa é a química que explica no nosso ethos traços de negligência, desleixo, displicência, relaxamento, bagunça e vivacidade.
Ante tão flagrante constatação, por que não se muda o ritual? Por que não se fez um planejamento em prazo adequado? Ora, o Brasil cultiva o gosto pelo instantâneo, pelo provisório. Coisas planejadas com muita antecedência parecem não combinar com a alma lúdica brasileira, brincalhona, irreverente. Se não fosse obrigado a enfrentar o batente para sobreviver, o brasileiro adoraria passar o ano inteiro na folia. Oswald de Andrade traduziu, um dia, tal estado de espírito ao versejar: ''Quando dá uma vontade louca de trabalhar, eu sento quietinho num canto, e espero a vontade passar''. Ademais, como se procurou argumentar, é perceptível uma aliança entre parceiros para deixar para a ''última meia hora'' o que poderia ser feito ''na última hora''. Haverá menos fiscalização, menos burocracia, menos senões e mais apoios.
E, assim, o Brasil vai rolando a bola e brandindo o slogan ''antes tarde do que nunca''. Afinal, fazê-las ''antes cedo do que tarde'' daria muito na vista. E isso, convenhamos, prejudica a visão (e os negócios) dos parceiros.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação em São Paulo
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