Modernidade ou decadência?

Estamos vivenciando uma avalanche de mudanças. Fala-se numa ''mudança de época''. Tudo parece se espatifar. O gosto pela rapidez, o apego ao instante, ao agora; a sedução do consumo, a exibição de aparências, a tirania do conforto, o individualismo exarcebado, a cultura da corrupção e da morte, são alguns dos ''sinais dos nossos tempos''. Estamos entulhados, entupidos, saturados, desgastados, distraídos em nome da modernidade. Somos mais escravos que livres. Cabe aqui uma pergunta: onde ficam a verdade, os valores, a ética? Somos hiperdesenvolvidos na economia e subdesenvolvidos na ética. Há um ''envenenamento do pensamento'' rondando nossa cultura, diz Bento XVI.
O culto do prazer e da modernidade tem levado as autoridades a legislar a união de pessoas do mesmo sexo, e estas mesmas autoridades descartam a Lei da Ficha Limpa. Decidiram liberar a marcha da maconha, a promover o projeto de lei contra a homofobia, tudo em nome dos direitos humanos. Não esqueçamos que o projeto de legalização do aborto e a lei contra os palmadas, apenas foram abafados. Respiramos o gás do erotismo, sem esquecer o kit gay do Ministério da Educação, e a profissionalização da prostituição que já despontou.
A decadência moral sempre foi um forte componente da queda das civilizações. Todos nós sabemos que o Império Romano não caiu pela força da espada, mas pela defasagem moral, pelo abuso do sexo, das paixões, da carne. A revolução sexual certamente trouxe benefícios. Saímos do tabu e do moralismo fanático. Não podemos, porém minimizar o surto de Aids, de outras doenças sexualmente transmissíveis, da pedofilia, do aumento da gravidez precoce e da desestruturação da família. Seria uma irresponsabilidade não querer perceber estes graves problemas.
Renomados historiadores preconizam que nossa civilização está se encaminhando para o seu ocaso, a sua queda. Ou mudamos, ou pereceremos. Nem sequer o meio ambiente é preservado. A globalização do capitalismo faz um milhão de pessoas passarem fome. A desigualdade social é um câncer social incurável. As descobertas da bioética são maravilhosas, mas sem ética, cairemos num abismo de arrogância científica e de soberba filosófica incontrolável e destrutiva. O progresso sem o respeito pela ética nos obriga a comer alimentos envenenados, a sofrer doenças modernas como o estresse, a depressão, o infarto, o terror do câncer. Nosso século é o ''século do medo'', pior ainda, somos coagidos a viver com a ''ilusão de normalidade'', até porque isso traz vantagem para alguns.
Essa realidade é um chão propício para a irrupção de novos misticismos, igrejas, religiões, seitas, como também a volta do satanismo e dos exorcismos. O maligno ataca, é verdade, mas, quem é todo-poderoso é Deus no seu amor, bondade e misericórdia. Em todas as partes do mundo caiu o profetismo e explodiu o conservadorismo, o fundamentalismo, o esoterismo. Onde fica o evangelho? O Concílio Vaticano II? O desenvolvimento integral? O compromisso com a verdade?
Não faz bem sermos pessimistas nem ''apocalípticos'', mas, realistas. Não podemos fazer farra quando o barco está afundando, nem tocar flauta quando o fogo está destruindo e matando. Somos capazes de reverter este quadro e de recomeçar, reconstruir, refazer nossa vida e nossa civilização. O bem será vitorioso com a condição de sermos bons e não olharmos só o bem-estar. Nossas potencialidades são maiores que as limitações, mas, é preciso respeitá-las e desenvolvê-las. Transformemos os desertos em jardins, os carros armados em tratores, o luto em alegria, os farrapos em trajes de festa. O cristianismo é a religião da alegria. Somos seres de esperança e por isso podemos construir o ''século da esperança'' cujo preço é o relacionamento filial com Deus, a comunicação fraterna com os outros, a alegria de nos aceitarmos como somos e o cuidado da mãe terra. Jesus Cristo e seu reino são o novo mundo, o verdadeiro paraíso.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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