ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2011
Junker de Assis Grassiotto 
Se as formigas podem definir o tamanho, o caráter e a função precisa do habitat, nós também deveríamos ser capazes de fazer o mesmo com nossas cidades. O resultado seria, nas palavras de Richard Rogers, uma cidade densa, policêntrica, de atividades organizadas, ecológica, igualitária, aberta, que favorecesse o contato e, sobretudo, bela. A cidade é a encarnação da sociedade e sua configuração deve ser analisada a partir de objetivos sociais.
O governo (federal, estadual ou municipal) tem a responsabilidade de direcionar a vida contemporânea para a sustentabilidade, induzindo à renúncia de um sistema explorador da tecnologia com fins comerciais, meramente lucrativos. Isto significa atender nossas necessidades atuais sem comprometer a capacidade de atendimento das necessidades das gerações futuras, norteando os esforços a favor da maioria (os pobres), o que implica num planejamento integrado que impeça a expansão sobre o meio rural, visando o aumento da economia de energia, o menor consumo de recursos naturais e a diminuição da poluição.
Esse conceito difere do que vem acontecendo em Londrina, uma cidade cada vez mais zonificada por suas funções, saltando à vista a expansão dos condomínios residenciais fechados, conectados por pistas (misto de rua e estrada vicinal) e o caso menos grave da Gleba Palhano com grande densidade de apartamentos e ruas desertas. Também encontra-se em fase final de construção um imenso conglomerado habitacional na Zona Norte, para mais de 12 mil pessoas, sem quase nenhuma diversidade de uso. Perder esta característica malévola custou aos conjuntos isolados construídos no fim dos anos 70, 30 anos de reformas e modificações individualizadas (só assim passaram a ter um caráter mais humano, saindo lentamente da massificação, da mesmice).
A expansão urbana encarece proibitivamente o transporte público, torna a população mais dependente do automóvel, traz consigo uma dificuldade adicional para a coleta do lixo e a necessidade de construção de novas redes (água, esgoto, energia, telefonia), creches e escolas, surgindo como corolário disso tudo o abandono e subuso de infraestrutura similar em outras regiões, principalmente centrais. Um mal ainda maior: esse esvaziamento implica em deterioração e decadência, muitas vezes irreversível ou reversível por um preço que a sociedade não pode pagar, bastando olhar para o que aconteceu e continua acontecendo com a cracolândia, uma antiga área nobre, no coração de São Paulo.
A cidade com que sonho requer a superação do urbanismo funcional, do predomínio do automóvel, que assim passa a dar lugar ao transporte coletivo. A questão é como acelerar seu desenvolvimento para atender às necessidades da população de maneira ecologicamente correta.
Quero trazer à discussão esses temas nesse momento em que chega à Câmara de Vereadores os projetos das leis complementares do Plano Diretor. Exemplificativamente: sou contra a expansão do perímetro urbano (Londrina tem hoje cerca de 50% de lotes vazios); sou contra os muros para fechamento de bairros residenciais que os isolam; sou a favor de uma cidade que procure minimizar os custos da sua infraestrutura em geral; sou a favor de uma cidade cheia de vida, pluralista, em que as pessoas se encontrem e parem para jogar conversa fora sobre banalidades (ainda que não acreditem, isto é possível e acontece em muitos e muitos bairros).
Este texto tem uma finalidade que foge dos objetivos expostos, mas que a eles está relacionada: dizer não aos que pressionam por uma aprovação de afogadilho dos projetos citados, pois na discussão estaremos determinando qual o futuro que queremos e por isso errar será inaceitável. Não há por que ter pressa.
JUNKER DE ASSIS GRASSIOTTO é engenheiro civil, doutor em Arquitetura e Urbanismo e ex-presidente do IPPUL e ex-secretário de Obras de Londrina


