Vergonha de ser honesto
Anos atrás quando li pela primeira vez o texto de Rui Barbosa onde ele menciona que o homem ainda sentiria vergonha de ser honesto, achei um pouco exagerada a sua previsão. Hoje já estou dando razão à afirmação do ''Águia de Haia''. Em meio a tantas falcatruas, malandragens, roubalheiras, desvio de dinheiro público, conluios e outros meios de levar vantagem, concluo que chegamos à outrora impensável situação por ele profetizada de ''desanimar da virtude, rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto''.
Diariamente somos bombardeados de todos os lados por atitudes desonestas: gasolina adulterada, bomba de combustível nos roubando, produtos pirateados, tarifas de pedágio escorchantes e impostas compulsoriamente, achaques de ''flanelinhas'' são alguns exemplos dessa nocividade de que somos vítimas. Porém, é no poder público que a desonestidade recrudesce e se impregna com mais intensidade, causando grandes prejuízos à população. São tantas atitudes desonestas de governantes, ministros, prefeitos, secretários, administradores, servidores que um escândalo ''abafa'' o outro e a nossa memória não consegue mais acompanhar o desenrolar das investigações. É lógico que não se pode generalizar, mas é muito raro encontrar gente honesta nessa área. Mesmo aqueles que se dizem, ou parecem ser corretos, engordam seus ganhos acumulando aposentadorias vergonhosas e pecam pela omissão de não denunciar as falcatruas que acontecem sob ''suas barbas''.
Infelizmente, nada mais nos causa perplexidade e indignação tantos são os episódios negativos proporcionados por essa gente desonesta. É claro que a corrupção sempre existiu, mas nos últimos anos o cenário nesse sentido se agravou de forma assustadora. Por exemplo: quando um presidente da República acha que caixa dois para financiamento de campanha política é coisa normal, quando uma ministra de Estado diz que ''o mensalão é tese defensável em favor de uma causa justa'' e um prefeito declara que ''desvio de dinheiro público é inerente ao ser humano'' é de nos deixar atônitos e apreensivos, pois isso é um golpe fatal na moralidade.
E essa mensagem negativa já está sendo transmitida para a nova geração de políticos. O resultado está aí: é com tristeza que vemos jovens políticos encerrando a carreira precocemente por envolvimento em falcatruas.
Causa-nos muita indignação ver uma economia impulsionada por um plano econômico eficientíssimo, proporcionando arrecadação de tributos num volume extraordinário, mas grande parte desses recursos sendo mal aplicada, com gastanças desordenadas e desviados para o bolso dos corruptos. Por outro lado, perde-se muito tempo e dinheiro para investigar a corrupção, com CPIs, CEIs e outros inquéritos, mas não há condenação e nem o produto do roubo é devolvido. Os detentores do poder se enriquecem rapidamente, enquanto que a população se priva dos direitos básicos garantidos pela Constituição.
O brasileiro vive acumulando frustrações: colocou no poder um grupo político que se dizia moralizador e que viria para salvar a administração pública, mas esses pretensos salvadores da pátria acabaram por escrever em negrito o maior capitulo de corrupção da história do Brasil.
E o eleitor não reage: continua trocando seu voto por favores, se contenta apenas com ''pão e circo'', é adepto ao ''rouba, mas faz'' e consegue a proeza de reeleger corruptos consagrados.
Assim segue o nosso Brasil: o poder agigantando-se nas mãos dos maus e a impunidade alimentando a desonestidade.

LUDINEI PICELLI é administrador de empresas em Londrina

mockup