Papagaios valem mais que humanos

Parece piada. Mais uma vez o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) cancelou a licença ambiental que permitia a duplicação da rodovia Régis Bittencourt. Esta duplicação vem se arrastando por anos e é uma reivindicação antiga, uma vez que o trecho que falta duplicar é pequeno, mas é um dos mais perigosos.
Já são quase dez anos desde que a licença foi expedida e o trecho, conhecido como Serra do Cafezal, que liga São Paulo a Curitiba, continua em pista simples e sendo o mais perigoso da rodovia. É rotina para os caminhoneiros ficarem parados no meio da estrada, formando imensas filas, além dos acidentes fatais. Por isso, não consigo entender o motivo pelo qual postergar uma obra tão importante que pode salvar vidas.
O entrave agora é ambiental, uma vez que a Serra do Cafezal é área de proteção do papagaio-do-peito-roxo. Mas temos que lembrar que a vida humana é o bem maior a ser protegido. Não queremos prejudicar a natureza, mas até quando pessoas terão que morrer por causa de papagaios?
Enquanto isso, a licença ambiental de um projeto que especialistas consideram um completo desastre ecológico, o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, foi liberada. Há anos a hidrelétrica de Belo Monte vem sendo alvo de intensos debates na região, intensificando-se a partir de fevereiro de 2010, quando o Ministério do Meio Ambiente concedeu a licença ambiental prévia para a construção.
Segundo ambientalistas, a usina de Belo Monte irá cavar um buraco maior que o Canal do Panamá no coração da Amazônia, alagando uma área imensa de floresta e expulsando milhares de indígenas da região. Mesmo assim, o presidente do Ibama, Curt Trennepohl, disse que a licença de instalação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, é ''tecnicamente e juridicamente sustentável'' e que o órgão ambiental está preparado para uma possível batalha judicial para defender o licenciamento da usina.
Bom, então, questiono o motivo de tanto cuidado com a Serra do Cafezal. Por que em um lugar é possível desmatar e, em outro, pessoas continuam morrendo por causa de papagaios?
Talvez o interesse por este trecho seja menor por parte do nosso governo do que a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Todos nós sabemos que, entre outros motivos, um dos fatores responsáveis pelo grande número de acidentes na Serra do Cafezal é que o trecho da rodovia fica constantemente úmido, por causa da chuva e garoa na região - o que deixa a pista simples, cheia de curvas e com pouca visibilidade para ultrapassagens, escorregadia e ainda mais perigosa.
Mas isso não parece ser um problema para nossos representantes. De qualquer forma, é um absurdo postergar mais uma vez a duplicação de um trecho de 30,5 quilômetros que é crítico em acidentes e engarrafamentos. É preciso lembrar que este é exatamente o segmento da rodovia com o maior número de acidentes e vítimas. Fato que parece não incomodar os responsáveis do Ibama.

GILBERTO ANTONIO CANTU é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Paraná (Setcepar)

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