Abraão nosso pai

Abraão é sinônimo de fé. Graças a sua fé ele tornou-se justo, amigo de Deus, fonte de bênçãos, vencedor dos inimigos, pai de numerosa descendência tão grande como as estrelas do céu e a areia das praias. A ''obediência da fé'' em Abraão é total, porque deixa sua terra, sua família e parte como peregrino sem saber para onde. Coloca-se em movimento, a caminho, à procura. A fé desinstala.
Sem fé é impossível agradar a Deus, mas, com a fé tudo é possível. Ela é a vitória que vence o mundo. Pela fé derrotamos o medo, as doenças, as tentações, as preocupações e atestamos milagres, prodígios, maravilhas. A fé vai além da mente, da ciência e das forças humanas.
Tão imensa e profunda é a fé de Abraão que mesmo sendo velho e sua esposa Sara estéril, geram um filho. As esterilidades são fecundadas pela fé. O filho único, Isaac, em quem Abraão depositava afeição, esperança, expectativas precisa ser sacrificado como prova da fé: o coração de Abraão entregou a Deus seu maior afeto, maior apego, maior tesouro, porém, pela mesma fé, ele sabia que Deus iria providenciar outra solução. Assim aconteceu e Isaac não foi sacrificado. A fé é a certeza daquilo que não vemos. A pessoa de fé diz como Abraão: ''Deus providenciará''.
A fé de Abraão transparece nas suas obras, no seu jeito de ser e de agir. Assim, quando chegam em sua casa os três visitantes, ele se levanta para recebê-los, foi ao seu encontro, prostrou-se aos seus pés, convidou-os a ficar em sua casa, foi buscar água e lavou os seus pés. Eis o que é fé, melhor ainda, nos gestos de amor e fraternidade expressamos nossa fé. A fé age pelo amor.
Abraão, movido pela fé, traz pão para os visitantes, escolhe o melhor novilho e prepara a refeição para seus hóspedes. Pediu que eles descansem à sombra da árvore e trouxe-lhes coalhada e leite. Fez tudo isso com alegria, de bom ânimo, com todo coração. Além disso, permanece de pé para servir os comensais (cf Gn 18).
Abraão é o pai da fé. Uma fé que não é fácil, pelo contrário, é exigente. As Sagradas Escrituras mostram como o testemunho da fé de Abraão influenciou outros homens e mulheres de Deus. E pela fé Abel ofereceu sacrifício a Deus, e mesmo morto suas obras ainda falam. Pela fé Enoc é arrebatado aos céus, Noé salvou a humanidade do dilúvio, Moisés defende e liberta o povo da escravidão do Egito, como se visse o invisível. Pela fé o povo atravessa o mar, vence o deserto e chega à terra prometida. Foi ainda pela fé que Raab, a prostituta, não pereceu por ter dado asilo aos espiões de Israel.
Pela fé desabaram os muros de Jericó e os homens e mulheres de Deus, taparam a boca de leões, praticaram a justiça, beberam água brotada da rocha, escaparam da espada, derrotaram enfermidades, venceram exércitos, sofreram escárnios, açoites, cadeias, prisões. Ainda mais, pela fé, foram torturados, apedrejados, perseguidos. São mártires da fé que vêm desde Abraão.
Nesta mesma fé podemos superar a rotina, a mediocridade, as omissões, os apegos, as preocupações, mas principalmente os medos. Jesus, não se cansa de dizer às pessoas: ''Tua fé te salvou''. Quantas montanhas a fé remove e quantas árvores lançam-se ao mar. Maravilhas, prodígios, portentos acontecem porque a fé é confiança, é certeza, é entrega, é consentimento, é adesão, é obediência, é resposta. Bem lembrou Jesus a Tomé: ''Felizes os que não viram, mas, todavia creram''.
A fé luz que elevou nossas faculdades, dilata o coração, alarga a mente, atrai a vontade, dialoga com a ciência, ordena os afetos, aponta o caminho certo, abre as mãos para a oração e o serviço, apressa os passos para a missão. Escutemos Jesus que nos diz: ''Convertei-vos e crede no Evangelho''.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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