O namoro

Nossa vida é marcada por nossas decisões. Uma decisão para dar certo precisa de discernimento e preparação. A improvisação, a precipitação, a banalidade têm causado muita dor, estresse, decepção. O sucesso de um projeto depende da preparação, do ensaio, do treino. Nesta lógica está o namoro. Para ser pai, mãe, esposo, esposa, o bom senso pede muita preparação. Lares não se improvisam. Por outro lado, nós aspiramos ser amados de um modo definitivo, fiel, verdadeiro. Não queremos ser vítimas dos outros e nem ser explorados e enganados por interesses, mentiras, segundas intenções. O namoro é essa procura de amar e ser amado, é o início de um projeto de vida que se plenifica no casamento e na família.
A vida humana é um caminhar feito de etapas. O namoro é uma etapa de procura, de amadurecimento, de conhecimento. Não há verdadeiro namoro onde não existe o diálogo sincero, a reta intenção, o respeito pelo outro. Confundimos namoro com o ''ficar'', a prática do sexo precoce, ou como um passatempo no qual existe envolvimento íntimo, mas sem a maturidade, a preparação, o afeto do coração. Atropelamos as etapas e somos vítimas da imaturidade, das paixões, do egoísmos próprios e os dos outros.
Não é fácil ser jovem, nem namorar de um modo cristão. Mas, temos bons exemplos de namoro cristão entre os jovens da Renovação Carismática Católica (RCC), Focolarinos, Opus Dei, Canção Nova e tantos outros. Vivemos uma
balbúrdia sexual promovida pela sociedade da satisfação e a cultura da banalização. Em assunto de sexo não podemos cair na dramatização nem no permissivismo. A educação da afetividade requer a valorização da disciplina, da renúncia como exigência do amor. Amor é exigente.
É missão dos pais, orientar seus filhos em relação ao namoro. As consequências de um namoro desordenado são muitas, a saber: gravidez precoce, doenças sexuais, criança abandonada, prática do aborto. Um namoro precoce demais é desaconselhável, porém, quando demorado demais pode acabar em prejuízo e até em injustiça. Como reparar o dano de um namoro doloroso quando depois de tantos anos a pessoa é abandonada, devendo recomeçar tudo na vida e ter perdido tempo e avançado em idade?
Nós cristãos podemos e devemos oferecer aos jovens um outro tipo de namoro, sem erotização, mas cheio de ternura, alegria, amor e felicidade. Quem acredita na família, no matrimônio como um projeto de vida que une duas almas, dois futuros, duas existências, duas consciências, não pode namorar de qualquer jeito. A civilização do amor livra-nos do embrutecimento e da obsessão erótica. A carne não basta para saciar a sede de amor e de Deus do coração humano. O remédio do amor cura nossas debilidades. Assim, o namoro é fruto do amor, caminho para o amor definitivo que se expressa no consenso matrimonial.
A volúpia maior da vida não é a da carne, é a do espírito, da ética, do bem e do amor. A arte de amar tem sua fonte em Deus que é amor. A religião ajuda muito os jovens na experiência do namoro porque facilita o perdão, a aceitação das limitações, o desejo de correção, a perseverança, a ordenação dos afetos. Namoro é experiência de espiritualidade. Onde dois ou três estão reunidos, Jesus promete estar presente. O namoro cristão acontece ''a três'': os namorados e presença de Jesus Cristo, o enamorado e esposo da humanidade.
Deus quis explicar seu amor pela humanidade em categorias de aliança, matrimônio, amor esponsal, família. O sacramento do matrimônio, é símbolo do amor de Deus pelo mundo. Deus é enamorado, desposado, apaixonado pela humanidade. Assim, o namoro tem um vínculo natural com o amor de Deus. Um autêntico namorado é um presente de Deus para sua namorada e vice-versa. A graça de Deus acompanha todos os passos de nossa vida, especialmente a trajetória do amor humano, a saber: o companheirismo, a amizade, o namoro, o noivado, o casamento, a família. É possível um namoro santo mesmo contando com nossas fraquezas.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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