ESPAÇO ABERTO
O verdadeiro gasto público
Os economistas dos banqueiros e aqueles cooptados ideologicamente balizam a opinião dos comentaristas de economia dos grandes meios de comunicação há muito tempo. A presidente Dilma Rousseff segue a cartilha da ortodoxia econômica e dos porta-vozes do mercado financeiro, assim como o ex-presidente Lula fazia, principalmente, quando decidiu continuar dando autonomia às decisões do Banco Central (Bc) e seu Comitê de Política Monetária (Copom).
Novamente a desculpa de sempre, isto é, o aumento da inflação serviu de argumento para que os juros básicos subissem para além dos 12% ao ano. O aumento dos preços parece inevitável para uma economia em ascensão (demanda crescente com oferta insuficiente e/ou a própria especulação com os derivativos em commodities) somado ao fato de que na transição de um ano para o outro sempre ocorrem distúrbios sazonais na oferta das próprias commodities e outros produtos primários de consumo corrente dos brasileiros.
Os manuais de economia conservadores sugerem que o remédio inflacionário seja o aumento dos juros para controlar a demanda agregada. Essa decisão agrada muito o mercado financeiro que agradece receber uma maior remuneração pela aquisição dos títulos públicos do governo.
Ao mesmo tempo em que a mídia sugere quase que discretamente que o BC eleve os juros para controlar a suposta inflação, ela também faz questão de lembrar o governo que os gastos do mesmo precisam diminuir, justamente para ajudar a combater a inflação. Qual a lógica dessa pressão? Os meios de comunicação desviam o foco na verdadeira causa do aumento da inflação e da dívida pública, isto é, os juros altos, e distorcem a decisão política que deveria ser tomada na direção inversa para tentar melhorar o desempenho da economia brasileira e maximizar os benefícios das políticas públicas expansionistas e inclusivas.
Eles agem de forma muito bem articulada no sentido de fazer permanecer a ideia de que não há alternativa, e que as medidas devem ser tomadas com austeridade monetária e fiscal para controlar o dragão da inflação e manter o modelo transferidor de renda das classes menos abastadas para os endinheirados donos do poder político e econômico.
Para aqueles que não entendem do assunto a situação é essa: enquanto o Brasil insistir em controlar a inflação com aumento dos juros a dívida pública não apenas aumentará, como também pressionará a taxa de câmbio. Isso significa que quanto maior os juros, maior será a chegada de dólares ao Brasil atraídos pela remuneração que os títulos públicos oferecem fazendo com que o dólar caia ainda mais e o real se valorize e, com isso, a dívida pública exploda no longo prazo.
Se isso continuar, as nossas importações aumentarão muito, principalmente em períodos de demanda bastante aquecida e os nossos produtos venderão menos para o exterior, já que eles estarão mais caros para quem os adquire de fora do Brasil. Dessa forma, poderá ocorrer um deficit na balança comercial, além de contribuir para acelerar o processo de desindustrialização da nossa economia.
Se quisermos evitar a fábrica de consensos midiática dos grandes meios de comunicação para esse e outros assuntos, deveremos tomar as vacinas adequadas para a doença infantil de acreditar na falsa comunicação e informação propagada pela monopolização da informação patrocinada pelas vozes de sempre - a grande mídia televisiva. A única vacina não deve ser tomada em dose única, já que nunca estaremos totalmente imunes, mas passa pela busca incessante de alternativas de informação e conhecimento que estão em todo o lugar; basta nos organizarmos politicamente.
MARCELO GONÇALVES MARCELINO é economista em Curitiba com especialização em Sociologia Política e mestrado em Sociologia pela UFPR





