São inúmeras as manifestações na imprensa sobre o livro ''Por uma vida melhor'', distribuído pelo MEC, através do Programa Nacional do Livro Didático, para o segundo segmento do ensino fundamental na Educação de Jovens e Adultos. A polêmica se instalou porque os autores ousaram transpor a fronteira da academia e colocar na pauta escolar a questão da variação linguística.
Os que tiverem oportunidade de acessar o capítulo diretamente em http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf verão que o que se busca é ensinar as diferenças entre norma culta e variedades populares e que ''escrever é diferente de falar''.
O que doeu nos ouvidos do senador José Sarney e outros escritores familiarizados com a língua portuguesa ''culta'' parece ter sido a afirmação de que é possível falar ''Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado''. De acordo com os autores, no entanto, isto não deveria ser visto como ''errado'', mas alertam que ''dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico''.
O grande pecado que justificou o apedrejamento da obra foi terem afirmado que a ''ideia de correto e incorreto no uso da língua deveria ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa''.
No debate provocado pelo recorte dado pela mídia à proposta dos autores afloram concepções de língua latentes em diversos segmentos sociais. Os linguistas e acadêmicos veem com naturalidade a proposta porque têm acompanhado pesquisas sobre variação linguística e a questão do preconceito subjacente à ideia de que todos deveríamos falar de acordo com a norma culta. No entanto, como a reportagem da ''Folha de São Paulo'' de 22 de maio demonstrou, mesmo aqueles com alto grau de escolarização cometem os chamados ''erros'' gramaticais em situações de fala.
Por trás da falsa polêmica estão arraigadas visões transmitidas, inclusive pela escola, de que só existe um jeito ''certo'' de falar e escrever, visões essas que agora são reforçadas pelos que condenam o livro.
A obra se alia a propostas mais progressistas que diferenciam fala de escrita e, principalmente, demonstram que existem a norma culta e outras variantes de menor prestígio.
Os que tivessem paciência de ler o livro na sua totalidade veriam que seu mérito está justamente em provocar essa consciência nos alunos, para que, longe de serem ensinados a ''falar errado'', seriam levados a conhecer os modos como a língua também serve como fator de exclusão social.
O título da obra não poderia ser mais feliz: uma vida melhor se constrói também pela língua e por dominá-la nas suas várias manifestações, nos seus diversos gêneros.
Uma vida melhor se faz pela aceitação da diversidade. Isto não significa, como muitos quiseram concluir, que a escola ensinaria a falar ''errado'' e sim que ''incorreto'' é uma valoração que tem como ponto de referência uma variante da língua elevada à categoria de ''correta''.
Um usuário competente da língua sabe distinguir qual tipo de linguagem empregar de acordo com a situação de comunicação na qual se encontra. A conversa de bar não permite a mesma linguagem que uma palestra em uma universidade. Um bilhete não tem o mesmo registro de uma petição.
Conhecer e dominar a língua para se sair bem nessas diversas situações é um dos aprendizados que a escola deve proporcionar. Por isso, a reação é desproporcional e apenas reveladora do grau de amadurecimento da sociedade sobre questões que envolvem a linguagem como uma prática social.

TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina

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