Doam-se diplomas
A educação pública brasileira está falida. Todos sabem disso, mas como mudar este triste quadro? Como você se sentiria se ao final do ano alguém lhe dissesse que seu trabalho não valeu nada? As horas de sono perdidas, os sábados, domingos, feriados, preparando atividades e provas, corrigindo-as e também elaborando recuperações, corrigindo-as e novamente porque o aluno faltou e disse que não veio porque não quis. E ele tem direito a tantas provas e avaliações quantas necessárias para ''passar de ano'', não para aprender. Qual seria a sensação?
Nós, professores, conhecemos bem essa realidade! Aqueles que deveriam ser os mais interessados no aprendizado - o aluno e a família - só querem ''passar de ano''! O aluno relapso e displicente diz aos professores que se reprovar ''vai no Núcleo'' e depois ''ao juiz''. O professor que tentar fazer um serviço sério, já que conhece o aluno e sabe ''de onde e como veio aquela nota'', será execrado pelos pais e pela justiça porque não passou o aluno. Terá seu trabalho e dedicação contestados, avaliados e anulados! É revoltante!
Em 32 anos como professora e pedagoga nunca vi um pai ou juiz perguntar ou contestar um dez ou nove que o aluno conseguiu sabendo-se que ele não aprendeu e não dominou o conteúdo. Nunca houve uma ação contra aqueles professores que dão nota, que não ensinam e enrolam o ano todo, porque no final o que importa é passar de ano!
Temos um país onde o que importa é apenas o diploma e não o aprendizado. Onde sobram vagas e faltam profissionais habilitados. Com este cenário, a escola pública deveria ser a mais exigente possível, ''sugando'' do aluno tudo que ele é capaz de produzir, cumprindo a sua função de ensinar. Se o único porquê do aluno ir à escola é passar de ano, então vamos dar diplomas. Evitaremos tanto trabalho, estresse, dor, humilhação, desperdício de tempo e dinheiro. E as consequências? Ah! elas estão aí para todos verem e sofrerem!
ELENICE ZIROLDO COSTA SAVIANI é professora e pedagoga em Londrina



Se quero paz devo construí-la
Todos desejam a paz social, mas são muitos os que só contribuem com o clamor por segurança e não entram com algo mais para concretizá-la. Um exemplo é o preconceito para empregar ex-detentos, conforme reportagem deste Jornal do último dia 26. Clamar pela ação do poder público é um direito, porque os cidadãos pagam por isso - e muito bem - por via de pesados impostos, mas é preciso um pouco mais de cada um.
Nestes bons tempos no setor do trabalho, com a existência de vagas para gente especializada ou prestes a formar-se, dar também a oportunidade a ex-reclusos é uma valiosa contribuição para que eles não retornem à delinquência. Se não se pode salvar todos, pode-se com certeza salvar muitos. A reportagem estriba-se em pesquisa da Fundação Perseu Abramo, segundo a qual o egresso da prisão esbarra na rejeição a ele.
Se queremos a paz temos de construí-la, e a boa vontade é fundamental. Se tanto clamamos por segurança, podemos ajudar simplesmente pelo ato de contratar um ex-delinquente, e se ele não tem qualificação vale o sacrifício de ensiná-lo, pela causa da diminuição da violência.
No Brasil, o próprio poder público é um reduto muito contaminado pela corrupção, envolvendo gente graúda no mais dos casos. Então, nos defrontamos com um sistema que muito subtrai do contribuinte e pouco dá em troca. Os casos dessa refinada delinquência lotam o noticiário todos os dias, mas isto não invalida que ofereçamos um pouco mais de nós, e se houver possibilidade de contratarmos essas pessoas, devemos dar-lhes uma chance.
A busca da ressocialização é isto. Se acrescentamos mais um tijolo nessa construção - além dos cinco meses ao ano do nosso ganho que já damos ao governo - estamos com certeza contribuindo para uma sociedade melhor e teremos mais moral e força para revindicar direitos e clamar por medidas contra a violência.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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