Paisagens flutuantes

Duas fotos de 1930 ilustram a primeira página de um álbum antigo de fotografias que guardo até hoje. Uma registra a família de meu pai em trajes tradicionais nipônicos posando em frente a uma moradia rural em Fukushima no Japão. A outra mostra a família em trajes ocidentais no deck do navio já a caminho do Brasil. Revejo as fotos. A primeira revela uma paisagem de final de inverno com neve esparsa na terra natal às margens do Rio Abukuma. A segunda traz a paisagem flutuante do navio Bingo Maru que foi o chão da família durante quase dois meses.
Duas fotos, duas paisagens. No imaginário do imigrante, o navio tinha praticamente o mesmo peso que a terra natal. Razão pela qual as duas fotos, duas paisagens, estão em lugar de destaque no álbum de fotografias.
Assim, foi com grande expectativa que visitei recentemente a Exposição de Navios no Museu Histórico da Imigração Japonesa, localizada em São Paulo. Estavam ali expostas as fotos de mais de 30 navios que trouxeram os imigrantes japoneses ao Brasil entre 1908 e o final dos anos 30. São eles, em ordem alfabética: África, Arábia, Argentina, Arizona, Awa, Bingo, Brazil, Buenos Aires, Canadá, Chicago, Dai-ni Unkai, Fushimi, Hakata, Hawai, Itsukushima, Kamakura, Kanagawa, Kasato, Kawachi, La Plata, Manila, México, Mishima, Montevideo, Panamá, Rio de Janeiro, Ryojun, Santos, Sanuki, Seattle, Teikoku, Tacoma, Tosa e Wakasa. Todos com a palavra Maru no final, que em japonês é designação de navio. Entre nós, talvez o mais conhecido seja o pioneiro Kasato Maru. Além das fotos e nomes, o texto da pesquisa traz detalhes como o local e data de construção, rotas e vindas ao Brasil.
Voltando às imagens, os primeiros navios eram cargueiros adaptados, de porte inimaginável para uma aventura de 52 dias no mar. Relatos descrevem a precariedade das instalações com minúsculos beliches desmontáveis, a qualidade da comida e o constante racionamento de água potável. As centenas de passageiros eram confortados de alguma maneira pela intensa vida comunitária a bordo, onde esperança era a palavra-chave. Alguns navios em movimento exibem vigorosa fumaça sendo expelida pelas chaminés, evidenciando que os motores ainda funcionavam a carvão. Mais tarde, os motores mais eficientes dos grandes navios passariam a ser movidos a óleo. Pelos dados explicativos ficamos sabendo que, quase todos tiveram como destino final a desmontagem ou o naufrágio durante o ultimo conflito mundial.
A Exposição traz ainda curiosidades como o Argentina Maru que foi reformado e adaptado para a utilização como porta-aviões. Também pouco conhecida é a história dos imigrantes japoneses que partiram de Kobe em 1913 a bordo do Mishima Maru, realizaram transbordo para o navio France em Marselha, para finalmente vir trabalhar nas minas de ouro em Minas Gerais.
Aqui no Paraná existem algumas publicações dos anos 40 com a história das famílias de imigrantes japoneses. Ali podemos conhecer o nome do patriarca e o sobrenome da família, o local de nascimento, a data de chegada ao Brasil e, via de regra, o nome do navio em que viajaram. Pode-se constatar que, quase todos os imigrantes japoneses que vieram ao Paraná utilizaram as embarcações que são apresentadas na Exposição.
A gentileza do Museu Histórico da Imigração Japonesa possibilitará trazer breve para Londrina a Exposição de Navios de Emigração Japonesa ao Brasil. Aos pioneiros, a oportunidade de rememorar a jornada. A outros, será uma oportunidade de conhecer parte da paisagem etnográfica dos que se aventuraram além-mar e deixaram marcas na terra vermelha.

HUMBERTO YAMAKI é professor de pós-graduação em Geografia na Universidade Estadual de Londrina

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