Inflação, herança do governo Lula

A inflação vem se tornando tema central de muitas discussões no cenário político e econômico brasileiro. E não é para menos. Nos últimos 12 meses a inflação atingiu 6,5%, perigosamente se aproximando dos dois dígitos à esquerda da vírgula.
A inflação afeta muito mais o trabalhador assalariado, que este governo tanto diz proteger, do que as empresas que, de uma forma ou outra acabam repassando para os preços.
É fato que já deveria ter passado a época da farra, o comportamento ''Papai-Noel'' adotado pelo governo Lula para eleger Dilma Rousseff. É também fato que o governo Lula foi irresponsável com as contas públicas. Mas a prepotência e o descaso na gestão da economia continuam, apenas com novas caras e argumentos.
O time econômico atribuiu o perigoso aumento da inflação ao crescimento acelerado da economia. Tudo é culpa das demandas de uma população teoricamente enriquecida: reajustes nos serviços públicos, crise nos aeroportos, falta de etanol - quando deveríamos ter estoques reguladores -, até apagões seriam sinais, para a equipe de governo.
O ex-presidente Lula mandou o povo comprar. Os brasileiros foram às compras, inclusive no exterior, e agora podemos ver de perto o resultado disso tudo: a inflação, de um lado, e o calote, de outro. O mais interessante é que todos os meses o governo bate recordes de arrecadação. Nunca se arrecadou tanto, porém, nunca se gastou tanto também com a máquina inchada do governo. O dinheiro extra que poderia ser empregado em infraestrutura, escoamento de safra, portos, aeroportos, melhoria nos sistemas de educação e saúde, vai para o ralo. Na China, só no sistema de transportes, são investidos 5% do PIB ao ano. No Brasil, a média das últimas décadas não chega a 3%, para todo o sistema.
O governo da presidente Dilma, que iniciou pregando austeridade e controle das contas públicas, anunciando cortes no orçamento de R$ 50 bilhões, cedeu às pressões e já está igual ou pior que o anterior. Continua tratando o aumento da inflação com menosprezo, esquecendo o efeito corrosivo que ela tem sobre a renda do trabalhador e sobre os benefícios de quem é afetado pelos programas sociais. Entende-se que quanto menor a renda, maior o impacto.
Os argumentos escorados pelo governo de que a inflação também é crescente em outros países não se sustenta. A inflação de 6,5% no Brasil é muito mais perigosa do que em outros países porque aqui há indexação e memória inflacionária. O centro da meta era de 4,5%, o que já é muito alto. Lembram do governo de José Sarney onde a inflação atingiu números astronômicos? Há alguns dias o ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia pedido a empresários que não remarcassem os preços, trazendo à memória o episódio ocorrido na época de Sarney. Esse é apenas mais um sinal de que realmente bateu o desespero no governo.
Isso nos remete à época da hiperinflação, quando os ministros iam para a televisão pedir que os empresários não segurassem os estoques. Já vimos esse filme. Dilma, desde quando assumiu, tenta conter o crescimento econômico, mas não corta os gastos públicos. Herança maldita que ela mesma ajudou a construir e da qual se beneficiou diretamente. A inflação sacode o governo Dilma.
A verdade é que é preciso fazer algo rápido. O governo Lula culpava o antecessor e nunca admitiu tomar qualquer medida antipopular que afetasse a campanha de Dilma. O remédio é sempre amargo, mas o Brasil não aguenta mais um governo sem compromisso com a estabilidade econômica.

VALTER ORSI é presidente do Sindimetal Londrina

mockup