A morte nos interpela

No último dia 19, descia a Avenida Higienópolis em Londrina quando o trânsito parou na altura da Igreja Coração de Maria. Nessa hora, os inúmeros amigos se despediam da cidadã londrinense que tinha sido vítima de um assalto dias antes, num cruzamento da cidade. Ao acompanhar o final desse velório e vendo o sofrimento que assolava os rostos dos que saíam da igreja, pensei em como estamos sendo vítimas de um modelo de vida que nos mata e leva embora precocemente as pessoas que amamos.
Em Lucas 13,1-5 Jesus, confrontado com a notícia da morte trágica de alguns homens vítimas da violência, responde aos interlocutores: ''Se não se converterem, morrerão do mesmo jeito''! É uma frase intrigante e até certo ponto decepcionante! Mas é um ato corajoso e profético d'Aquele que veio para colocar o dedo na ferida e apontar para as causas profundas das mazelas humanas. Não se poderia esperar outra coisa de um sábio desse calibre! Ficar pela poda superficial, se contentar com explicações deveras banais ou caçar responsáveis materiais, não vai adiantar em termos da almejada solução definitiva que estanque o derramamento de sangue e lágrimas que tanto nos fazem sofrer.
Tenho visto com apreensão e desconfiança as manifestações ocasionais em torno da justa reclamação de mais segurança, mais saúde, etc. Considero-as um belíssimo exercício da cidadania e é uma pena que geralmente ocorram (e somente) em momentos de dor e legítima revolta. Maior suspeita, quando as vejo em torno de alguma classe mais privilegiada e com maiores condições de organização e pressão popular. Vir a público e cobrar de quem de direito o que nos pertence, é salutar e profundamente revelador do grau de maturidade democrática da nossa sociedade. Mas, infelizmente, não resolve! Um aumento substancial de policiais, de viaturas e de outros recursos daria apenas a ilusão ótica de ''estarmos seguros''. Nada mais! Um guarda desarmado, idoso e doente na porta de nossa residência, escutando o rádio e cochilando durante a noite, é a imagem mais patética dessa ilusão de segurança que embala o nosso sono.
''Se não vos converterdes, morrereis do mesmo jeito.'' Se não mudarmos urgentemente os nossos parâmetros culturais e existenciais, se não pautarmos a nossa (con)vivência por valores que evidenciem a dignidade do ser humano, se não exercitarmos a tolerância e buscarmos uma fraternidade cidadã que derrube preconceitos e faça de cada homem um irmão do outro, teremos constantemente no semelhante um potencial inimigo e seremos vítimas de um modus vivendi equivocado a autofágico.
A conversão aqui mencionada refere-se exatamente a uma revisão dos objetivos que buscamos e dos métodos que usamos para atingi-los. Somos uma sociedade excludente geradora de guetos e fossos, repleta de discriminações dos mais variados teores. Mata-se por um relógio e mata-se por nada! Porque jamais existirão razões válidas para matar! A criminalidade nunca esteve ausente de qualquer modelo de organização social. Ela é mensurável e aceita com índices de razoabilidade. Mas no Brasil estamos muito distantes do que seria razoável! O Brasil da impunidade, da corrupção quase endêmica e dos atrasos variados que resplandecem escandalosamente no cinismo e hipocrisia de algumas classes dominantes, torna-se se não a fonte, pelo menos o leito lajeado por onde deslizam as atrocidades que geram tanta revolta e vergonha.
A situação cultural, axiológica, social e moral do Brasil exige soluções urgentes: do Estado, o poder de polícia; da sociedade, a preservação dos valores da ética e da moral começando pela família; dos meios de comunicação espera-se uma pauta menos voltada para o sensacionalismo e mais dirigida à difusão da cultura da paz.

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

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