Arte e políticas públicas

Está se aproximando o período em que será realizado o Festival Internacional de Londrina (Filo) e é quando a cidade se agitará em torno de muitas apresentações teatrais. Brevemente, Londrina será envolvida por uma série de manifestações cênicas o que dará a clara ideia de que a cidade, por um tempo, estará respirando teatro. Após o período do Filo, haverá um novo/velho silêncio teatral, um deserto cultural ao qual a maioria das cidades de pequeno e médio portes está fadada a vivenciar a cada ano. Não é de se estranhar que este fenômeno aconteça sistematicamente, uma vez que as políticas culturais dos órgãos públicos e privados se concentram basicamente numa política de ''eventos''.
Assim, Londrina abriga dois grandes festivais - um de teatro e outro de música - além de outros eventos como o Londrix (evento de literatura), Mostra Londrina de Cinema, Festival de Dança e Mostra de Teatro e Circo. Eventos como estes são momentos raros de reunião de obras e artistas e oportunidade para o público ter contato com produções e discussões no campo das artes. Para o público em geral, estudantes de música, teatro e artes em geral, bem como para artistas, estes eventos significam momentos preciosos de aprendizado e troca.
A importância desses encontros é reconhecida no valor que a comunidade atribui a essas ocasiões. O deserto que se estende entre uma e outra dessas ocasiões poderia se alastrar por todo o ano caso não tivéssemos oásis culturais como esses nesses festivais e encontros. Essa parece ser uma iniciativa maravilhosa, em que trabalhadores da arte, estudantes em formação e público em geral podem compartilhar momentos em que há uma efervescência cultural.
É estranho que, mesmo havendo incentivo à cultura nas cidades de médio porte como Londrina, ainda tenhamos tão pouco teatro ou arte produzidos no próprio município. A não existência de um teatro municipal ironiza ainda mais a realidade de Londrina, a qual abriga um dos maiores festivais de teatro do País. Não temos teatro municipal, assim como não temos vários grupos trabalhando regularmente, do mesmo modo como não temos mercado de trabalho para atores que se formam na universidade local, assim como são minguadas as manifestações em artes visuais.
Os frutos de eventos artísticos são muitos, no entanto, há que se reconhecer as limitações impostas pela política de eventos. O aspecto mais negativo diz respeito ao fato de tal política concentrar recursos e atenção sobre os grandes eventos e não investir tanto na formação de artistas - atores, músicos, artistas visuais, escritores e também de público - como aparentemente parece fazer. Reconhecidamente, há sempre um caráter pedagógico presente nos eventos, até para amenizar sua natureza efêmera. Mas a verdade é que, após oficinas e palestras formativas, estudantes, artistas e público são fadados a longos períodos de completa aridez.
Não se trata aqui de defender o deleite de alguns. Todos nós sabemos sobre o papel social da arte; sobre o quanto a arte pode contribuir para a inclusão social e impedir a violência. Sabemos também sobre o valor terapêutico da apreciação e criação de arte. A arte nos torna mais sensíveis ao mundo. Assim, há que se ter mais arte nas comunidades e escolas, e também nos espaços artísticos, mas os responsáveis por políticas públicas e culturais precisam despertar para a necessidade de criação de ações voltadas para este objetivo. Essas políticas precisam se voltar para projetos que visem à formação de agentes culturais, arte-educadores, assim como artistas e públicos, os quais poderão minimizar a lacuna existente entre o que se apresenta nos festivais e encontros e o que vivenciamos no dia a dia.

FERNANDO A. STRATICO é professor da Universidade Estadual de Londrina

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