Inglês? Para quê?
Recentemente vimos surgir manifestações contrárias à escolha feita pelo curso de Medicina da UEL de ter como prova específica na segunda fase do seu vestibular o Inglês. Os argumentos utilizados foram que a cobrança desse conhecimento é irrelevante e elitista. Na opinião de algumas pessoas é irrelevante porque o conhecimento de um outro idioma, neste caso específico o Inglês, nada tem a ver com o campo de atuação do profissional de Medicina, muito mais adequado para a área seria a Sociologia ou a Física. E elitista porque os alunos de escolas públicas não aprendem o idioma na escola e apenas aqueles que estudam em escolas privadas de línguas têm condições de fazer uma boa prova e com isso muitos são excluídos.
O conhecimento de uma segunda língua vai muito além de questões profissionais e práticas. Saber um outro idioma tem valores educacionais, psicológicos e culturais imensuráveis. Inúmeras são as sociedades que valorizam a aprendizagem de um segundo idioma, às vezes mais de um, e o incluem no currículo formal da educação básica, como é o caso do Brasil.
Estudando um segundo idioma temos a oportunidade de desenvolvermos nossas capacidades cognitivas em vários aspectos. A consciência linguística, a criatividade e a habilidade de ver o mundo por outros ''ângulos'' são estimuladas. Além disso, nos tornamos mais conscientes do mundo em que vivemos e das outras culturas que nos rodeiam, pois estudar uma segunda língua implica em também estudar a cultura que ela expressa. Conhecer a cultura do outro pode nos levar a apreciarmos ainda mais nossa própria cultura e, ao mesmo tempo, tem potencial para nos tornar mais tolerantes às diferenças. Portanto, o conhecimento de Inglês e de outras línguas estrangeiras tem a ver não só com os profissionais da Medicina, mas com todos, não importa a profissão que tenhamos escolhido.
É equivocado dizer que quem só estuda Inglês na escola de ensino básico está excluído por não ter condições de aprendê-lo para fazer uma boa prova no vestibular, e somente quem estuda em escolas de idiomas está apto. Os objetivos do ensino de uma segunda língua na educação básica são diferentes dos objetivos de uma escola de idiomas. Na educação básica os objetivos estão voltados para, além de aspectos linguísticos, a formação educacional global de cidadãos críticos inseridos no mundo em que vivem. A ênfase, diferentemente das escolas de idiomas, não está nas habilidades de comunicação oral e sim na leitura crítica, sem excluir as outras habilidades. Com isso o que os alunos desses dois contextos desenvolvem é diferente. Em termos de habilidade de comunicação oral o aluno da escola básica está em desvantagem. Por outro lado, o que é cobrado dos alunos na prova de Inglês do vestibular está de acordo com o que é trabalhado na educação básica.
A escolha feita pelo curso de Medicina não é excludente. É uma escolha que tem poder para impactar o ensino e aprendizagem de Inglês no sistema educacional básico de forma positiva. O fato de um curso tão concorrido no vestibular e de tanto prestígio na sociedade ter dado valor ao conhecimento de Inglês sinaliza que esse conhecimento é muito mais importante do que se tem avaliado. Muitos acreditam que ''não se aprende Inglês na escola'' por inúmeras razões e aceitam isso como verdade sem pensar em fazer nada a respeito, até mesmo por não verem o valor de tal aprendizado. Devemos dar o valor legítimo ao ensino e aprendizagem das línguas estrangeiras e fazer com que ele aconteça de forma eficaz para nossos alunos. Com isso, estaremos contribuindo tanto para uma necessidade prática, passar no vestibular, como para a formação e desenvolvimento de nossos alunos como cidadãos.

ALCIONE G. CAMPOS é professora colaboradora do departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade Estadual de Londrina

mockup