ESPAÇO ABERTO
Entre teóricos e teorias
Tive a oportunidade de conhecer, em meus primeiros anos escolares, mesmo nos lamentáveis anos ditatoriais, uma escola mais democrática. Ao meu lado, por alguns semestres, colegas moradores de segregados cortiços (talvez não tão segregados assim) que se misturavam a outros de classe média e alta (talvez não tão alta assim). Revezávamo-nos em interesses egoístas, próprio dos seres humanos que começam a se conhecer como tal. A aproximação ao negrinho favelado garantia que eu o teria no meu time da escola. Da mesma forma, a sua inserção no ''meu'' grupo de trabalho lhe estava garantida. Vivíamos próximos, embora em endereços domiciliares distantes. Muito diferente dos dias atuais, em que se mora proximamente, mas muros separam os condomínios das favelas (embora os cuidadores dos condomínios sejam exatamente aqueles de quem se quer distância).
Não me lembro, em nossas relações, de falarmos algo e fazermos o contrário. Não me recordo de impugnações a nossos professores, mesmo que por vezes achássemos uma ou outra posição injusta. O mesmo para com nossos pais.
Antes que me definam como saudosista, sei, o mundo mudou. É outro. O que não significa que alguns valores devessem ter se perdido. De lá para cá, pais tornaram-se amigos, deixando, por vezes, de serem pais. Alunos-filhos passaram a contestar e testar.
Há alguns bons meses, repercutiu fortemente a explosão de um professor no município de Caraguatatuba, São Paulo. Não consigo não entendê-lo. Pior foi vê-lo se justificando, atribuindo a si toda a culpa pelo descontrole. Outro dia um condutor de ônibus escolar (talvez uma van, portanto menor e de maior repercussão) largou dois alunos a cerca de três quilômetros de seus destinos. Foi tratado como despreparado pelos anjos, pelos pais dos anjos e pela imprensa. Gostaria de ter observado sua versão. Ficaria feliz de ouvir de sua boca que o abandono aos filhos não é de uma distância de apenas alguns quilômetros. Talvez eu conseguisse compreender melhor seu erro. Gostaria também de saber as razões de tanta aversão à direção da escola do União da Vitória, em Londrina, e por qual razão a diretora insiste em muros mais amplos. Não creio que seja só porque tenhamos alguns marginais incorrigíveis, mas porque não consegue inserir-me em sua comunidade.
A educação contemporânea não congrega, segrega. O bullying talvez seja menos pessoal e mais social. Talvez melhor do que aprovar a revista às mochilas de nossos estudantes, seja imprescindível consentir que sejam vasculhadas as cabeças dos pais ou responsáveis e dos empresários e coordenadores de escolas. Talvez, compreenderíamos melhor as cabeças de nossas crianças e adolescentes. O fato é que existem poucos sonhos comunitários. Os particulares prevalecem.
Os tiros de Realengo feriram. Não só crianças, mas nossa sociedade. Há muito ferida. Uma sociedade que apenas julga e pouco se julga. Que apenas vê e pouco se vê. Que há muito ostenta e pouco se sustenta em valores. Uma sociedade que chora a ação de Wellington Menezes e festeja a morte de um terrorista, realizada da mesma forma: invadindo e atirando. Como entender tal contradição?
Algumas escolas particulares não têm alunos, mas clientes. Não têm professores, mas empregados sem autonomia. Sendo assim, o aluno terá quase sempre razão. Prevalece. E sabe disso. Enquanto isto, grande parte das escolas públicas não têm docentes, mas necessitados que buscam a sobrevivência; não têm discentes, mas, quase sempre, interessados em diplomas, já que aparentemente não há outra forma de ascensão social.
Muito interessante seria o retorno dos teóricos da educação às salas de aulas. Poderiam rever grande parte de suas teses, quase sempre irreais.
AGNALDO KUPPER é professor em Londrina





