A fé dos mártires

O mártir é como a mãe, doa seu sangue para o bem e a vida dos outros. O sangue dos mártires é mais eloquente que palavras, teorias, discursos. O martírio é a máxima confissão de fé. Como explicar tanta crueldade dos algozes e tanta serenidade das vítimas? Quanto mais ferocidade de um lado, mais firmeza de outro lado. A fé não deixa o mártir ceder aos suplícios, pelo contrário, são os suplícios que cedem diante da fé. A tortura é passagem para a glória.
As coroas da glória deram fim às dores do corpo. Os mártires perseveram e vencem com a mente incorrupta, com a força divina, sem as flechas terrenas, mas com as armas da fé. Os torturados eram mais fortes que os torturadores. Os golpes furiosos não venceram a fé inexpugnável. Pelo contrário, o sangue dos cristãos extinguiu o incêndio da perseguição e fez a Igreja ainda mais forte com a multiplicação de novos cristãos.
Nos mártires lutava Cristo, que hoje luta e vence em nós. A Igreja se torna mais bela e florida com as rosas vermelhas do martírio. O mundo persegue, mas não triunfa, ataca mas não vence. Na verdade, o mundo está vencido. Sabemos, por experiência, que o mundo nos afaga para seduzir ou nos aterroriza para quebrar-nos. Trinfamos em Cristo Jesus, é o triunfo da fé.
Os mártires morrem ou rezando, ou em silêncio, mas com a mente e o coração fixos no céu, na glória, na eternidade. Muitas vezes, eles mesmos ajudam os algozes a sacrificá-los. Outras vezes não sentem os horrores das torturas, dos dentes das feras, dos chifres de animais enfurecidos, do fogo que os consome, da espada que os transpassa. Eis o mistério da fé. O que importa é estar com Cristo. Ninguém os arranca das mãos de Deus. Não querem privar-se da glória que segue imediatamente ao sacrifício de si. O que mais surpreende é que o mártir não pede para ficar livre do sofrimento. Ele o abraça com força e alegria.
Escreve São João de Ávila: ''Quanta honra recebemos ao sermos desonrados, quanta glória nos reserva a perseguição, quanta recompensa para os que, feridos no combate recebem o abraço de Deus''. São Justino diz: ''Desejamos e esperamos chegar à salvação pelos tormentos que sofremos por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo''.
Os mártires destronam principados e potestades, e apontam o nascimento de uma nova aurora para a Igreja que em Cristo é invencível e indestrutível. O império e as portas do mal não prevalecerão. Os mártires sabem e confessam que a ''vida do homem é a visão de Deus''. O martírio não é derrota, é vitória, é sangue novo na Igreja.
Não podemos esquecer que o cumprimento do dever, o combate ao pecado, a perseverança e fortaleza nas situações difíceis, as lutas para perseverar na graça, são também um ''martírio lento e constante'' (Pio XII). Temos perseguidores internos, invisíveis, ocultos que são as tentações, os desejos, as facilidades que nos iludem e decepcionam. É o martírio da luta contra o mal e as trevas.
Há também o ''martírio de amor'' (S. Pedro Crisólogo) que é o cotidiano, a cruz de cada dia, provações, humilhações e a luta para fazer a vontade de Deus. Assim trabalhamos e sofremos para a glória de Deus. Os ''mártires do amor'' sofrem o martírio cotidiano na renúncia a si mesmo, na oferta e oblação de si. Quantas espadas são cravadas em nossos corações, mas, o ''amor é forte com a morte'' (Ct 8,6). Não raras vezes o povo e a Igreja passam por perseguições, ódios, desprezos, calúnias, que são espadas afiadas, martírios morais, que fazem sofrer, mas que purificam. Nossos algozes podem ser nossos artistas, nossos escultores. Nossas armas são o perdão, a perseverança e esperança da glória. O cristão pode morrer, nunca matar. Desde a morte e a ressurreição de Jesus, as vítimas são vitoriosas.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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