ESPAÇO ABERTO
Cartão vermelho para as 'marcas-barbantes'
O Brasil dá pistas de que está entrando em um caminho sem volta no que se refere à qualificação dos profissionais e das empresas. Até mesmo em setores onde - até bem pouco tempo - os conceitos sobre qualidade eram vistos como perfumaria, hoje ocorre não apenas a adesão como a fiscalização por parte das próprias empresas, que buscam apontar dentro do segmento fabricantes e serviços não conformes. O objetivo é um só: elevar o nível da oferta isolando fabricantes e prestadores que, sob o argumento do baixo preço, oferecem qualquer coisa e fomentam uma concorrência desleal.
Mas preço não é mais resposta. Qualidade, tecnologia e uma consistente proposta de valor são argumentos mais concretos para essa questão. E para imputar valores a seus produtos criando um patamar elevado, fabricantes concorrentes se unem para ditar novas regras e promovem a separação do joio e do trigo na indústria, educando o consumidor, oferecendo diretrizes para que ele entenda o que deve ser observado antes de eleger uma marca. E essas empresas estão cobertas de razão: as organizações dependem de seus clientes e, portanto, devem criar ferramentas para entender as necessidades atuais e futuras dessa demanda, além de se esforçarem para exceder as expectativas e mostrar que é a relação custo-benefício que deve ser levada em conta em detrimento da relação custo-custo.
Mas para se chegar a esse ponto, as empresas terão que enfrentar o problema de frente: para sanear o mercado não há outra solução que não a denúncia das ''marcas-barbantes''. Essa iniciativa deve partir de quem trabalha dentro das normas, buscando a qualidade. O Ministério Público deve ser acionado para que os aventureiros sejam penalizados e banidos do segmento.
Entre os elementos imprescindíveis para que se promova a qualidade está a mão de obra. São esses recursos humanos as principais engrenagens de manutenção de um sistema de gerenciamento de qualidade. Porém, a falta de investimentos em capacitação, dificulta a contratação de funcionários em 67% das empresas brasileiras, segundo levantamento realizado pela Fundação Dom Cabral, que mostra que as companhias não conseguem suprir a demanda em curto prazo. De acordo com a pesquisa, a indústria da construção e o setor de bens de consumo são os que têm maior percentual de empresas com dificuldade para recrutar: respectivamente 88% e 80%.
E são justamente setores que registram as maiores taxas de crescimento, os mais vitimados pela falta de qualificação de pessoal. Em 2011, a construção civil espera crescer 6%, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic). Isso significa que a escassez de bons profissionais nessa área também tende a crescer, caso as próprias indústrias não se mobilizem para mudar essa realidade.
Trata-se de um efeito dominó que começa dentro - por exemplo - da própria construtora, que requer engenheiros mais bem preparados. Esses engenheiros vão recrutar mestres de obras com mais know-how que, por sua vez, vão exigir pintores, azulejistas, pedreiros, encanadores e eletricistas mais capacitados.
O que não deve ser esquecido é que a situação em segmentos como a construção civil é emergencial. Portanto, para suprir esse deficit, não há como contar apenas com programas governamentais e escolas técnicas. Os interessados nas contratações de colaboradores capacitados também devem colocar a mão na massa e qualificar.
Foi o que a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) fez realizando o Programa Pintor Profissional, que conta com cinco mil participantes e dois mil pintores já aprovados. Por sua vez, a iniciativa também já é praticada individualmente por fabricantes de tintas que, cientes da boa performance de seus produtos, investem na capacitação de profissionais criando uma rede positiva a favor do mercado da qualidade total.
MATHEUS S. GÓIS é administrador de empresas em Cambé





