Estereótipo do Rio

Não mais Zé Carioca, agora a Arara Azul ameaçada de extinção é quem ganha os holofotes e dá nome ao filme. O pano de fundo é a Cidade Maravilhosa. Céu, mar, verdes matas, flores e a baía da Guanabara maravilhosamente desenhada pelas praias e montanhas. O bondinho do Pão de Açúcar e o Cordovado com bichos que andam e saltitam, outros cantam e dançam coreografias ao voar. A alegria colore a vida até que o predador mais perigoso se manifesta: o traficante brasileiro de animais silvestres.
Assim, a Ararinha Azul é exportada clandestinamente e viaja para longe. Corre perigos até encontrar algum estrangeiro que a acolhe, longe da liberdade de seus pares. Tudo vai bem até que um pesquisador pátrio abobalhado saia do Brasil em busca do único macho sobrevivente daquela espécie - por acaso aquele filhote contrabandeado anos atrás. Após titubear, a ''salvadora'' (norte-americana) do bichinho concorda em vir ao Rio para o pássaro possa namorar uma ararinha carioca e a espécie seja preservada. A propósito, a ararinha azul é uma ave que não existe no Rio de Janeiro e sim no Norte e Nordeste brasileiro. Uma diferença de distância assim como de Portugal até a Itália.
Em tempos de pré-Copa e pré-Olimpíada, a película seria um bom lugar para mostrar as belezas naturais, riqueza cultural e os talentos científicos do nosso país, dentre outros avanços nos vários campos da agricultura, tecnologia, indústria e saúde. Entretanto, nem de longe isso acontece. O que se vê é uma série de cenas onde a malandragem, a conquista sexual, o roubo, a violência, a irresponsabilidade, a falta de compromisso com o trabalho e a desonestidade são o prato do dia.
A ''cultura'' se restringe a quatro dias anuais onde o samba impera. Por incrível que pareça, até o sambódromo é corrompido, pois lá é possível burlar a segurança e invadir a pista com carros alegóricos clandestinos. A impressão que se tem é que as pessoas despem-se não só fisicamente, mas de todos os seus conhecimentos e brios para desfilar pelas ruas durante o carnaval. Passistas coloridos, cobertos com penas e outros adereços, sugerindo que também ali os animais são vítimas de abuso. Aqueles que no carnaval não estão, assistem futebol. Até os animais silvestres que aparecem são ladrões/trombadinhas como a quadrilha de micos.
O pesquisador é caracterizado como pouco responsável, com auxiliares incompetentes que só querem viver de carnaval e futebol, deixando os laboratórios à mercê de bandidos. O único garoto pré-adolescente que aparece é sem-teto, obrigado a roubar porque não tem pais, vive faminto e abandonado.
O ''final feliz'' deixa uma sensação nada agradável: o Brasil sendo atacado de forma destrutiva. Ao invés de desenhar a beleza natural desde o mar até as florestas, a diversidade da fauna e da flora, a agricultura tão farta, os avanços científicos e tecnológicos, a cultura popular com tantos matizes, a música, o esporte... O que se assiste é um desfile de desgraças, como se o Brasil fosse apenas um reduto de bandidos e pessoas que nada sabem fazer além tirar a roupa e sambar.
Será que também não temos por aqui pessoas honestas, pesquisadores inteligentes, filhos que estudam e que moram com os pais, macacos que não roubam turistas, homens maduros honestos e que praticam o bem? (Isso o filme não mostra). Pasmem, esse é o desenho animado de maior sucesso no Brasil e no mundo! Seria mais um recado para cuidarmos melhor da imagem do nosso país?

NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina e MARIA ELIZABETH BARRETO DE PINHO TAVARES é psicóloga em Londrina

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