Meio século de voos espaciais tripulados
No último dia 12 completou-se 50 anos da realização do primeiro voo espacial tripulado da história. Nesta data, em 1961, o soviético Iuri Gagarin, então com apenas 27 anos, tornou-se o primeiro ser humano a voar ao espaço. Ainda que tenha sido o voo orbital mais curto da história, completando uma única volta em torno da Terra, foi um feito grandioso, provando definitivamente que um ser humano poderia manter-se vivo no espaço e voltar em segurança à Terra, sem danos psicológicos ou físicos - ao menos nas missões espaciais mais curtas.
Gagarin era filho de um carpinteiro e uma trabalhadora rural. Dois de seus irmãos foram feitos escravos pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Era um jovem de origem simples, ateu, algo apreciado pelo governo soviético, e era então o homem certo para ser aclamado herói do povo comunista. Infelizmente, o voo de Gagarin ao espaço, por menos de duas horas, seria o ponto mais brilhante de sua carreira. Com o título de ''Herói da União Soviética'', o jovem foi impedido de voar novamente até mesmo em aviões, muito menos em naves espaciais.
O governo soviético não queria arriscar-se a perder um herói como Gagarin em algum acidente aéreo ou espacial, mantendo-o em cargos burocráticos. Gagarin então passou a lutar pela revogação deste impedimento, para que pudesse voar ao espaço novamente. Após muitos pedidos e cartas enviadas ao governo, conseguiu o cancelamento da ordem e passou a treinar para subir ao espaço novamente, como comandante da nave Soyuz 3. Porém, por grande ironia do destino, perdeu a vida justamente durante o treinamento, em 1968, em um acidente aéreo, como temia o governo de seu país.
Cinquenta anos após aquele jovem de sorriso largo subir ao espaço, fica a impressão de que ele nasceu para brindar a humanidade com aquele feito, arriscando sua vida em uma nave que mal havia sido testada. Tão rústica era sua nave que ele quase morreu no retorno à Terra, quando dois módulos não se separaram e a mesma quase explodiu na reentrada. Várias outras naves soviéticas apresentariam problemas tão ou mais graves. Apesar dos infortúnios, seu voo abriu as portas para a era das missões espaciais tripuladas.
O voo espacial de Gagarin também serviu para mexer com um gigante adormecido: os Estados Unidos. Em plena Guerra Fria, a grande potência capitalista jamais se daria ao luxo de ficar para trás. Menos de um mês após o voo de Gagarin, o astronauta Alan Shepard tornou-se o primeiro americano no espaço. Iniciava-se ali a segunda fase da disputa conhecida como Corrida Espacial, cujo objetivo era colocar o primeiro ser humano na Lua. Nesta disputa os Estados Unidos, mais preparados tecnológica, ideológica e economicamente, levariam a melhor. E aqui observa-se um paradoxo: se a União Soviética não tivesse tido a honra de colocar o primeiro homem no espaço, os Estados Unidos talvez não tivessem ido à Lua primeiro. Isso porque quando os americanos perderam a chance de colocar o primeiro homem no espaço, sentiram-se humilhados e viram-se na obrigação de dar uma resposta aos feitos comunistas, colocando os primeiros homens na Lua, algo que conseguiram entre os anos de 1969 e 1972.
Os soviéticos nunca foram à Lua. Mas os americanos, apesar de serem seus rivais, deixaram na Lua, durante as missões Apollo 11 e Apollo 15, num exemplo de civilidade, placas comemorativas em memória de Gagarin e outros cosmonautas e astronautas mortos até então. Uma homenagem mais que merecida a Gagarin e outros heróis que deram suas vidas pela exploração espacial.

JOSÉ SINÉSIO RODRIGUES é aluno de Geografia da Universidade Estadual de Londrina e coordenador da área de Astronáutica do Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia de Londrina

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