Nesse momento, abalados todos que estamos pelo massacre no Rio de Janeiro, a manchete do jornal Diário de Pernambuco reflete bem o sentimento dos brasileiros, ao apontar que nessa tragédia houve 12 mortos e 190 milhões de feridos. Execrações públicas da memória do atirador de Realengo aparecem em massa, com lágrimas da presidente da República e com ataques veementes do governador do Estado.
Levantando as questões que ficam em aberto, o público pergunta: Quais os motivos? Por que tamanha violência? Onde está o cuidado com os inocentes? Criam-se inquéritos apuradíssimos que em pouco tempo já dão resultados, com a prisão dos responsáveis pela venda das armas que promoveram o morticínio.
Ao mesmo tempo, a enxurrada de demagogias e promessas baratas tenta acalmar a opinião pública. Revolvem-se as cinzas do plebiscito sobre o desarmamento, revisam-se as regras de segurança nas escolas, advoga-se um maior policiamento, capaz de conter manifestações violentas de elementos fora de controle, com tendência a atitudes extremadas. Tenta-se dar uma resposta à sociedade, mas com os argumentos errados, já que ao pensarmos novamente sobre o desarmamento, não nos lembramos que quem entrega armas em um movimento assim são pessoas honestas, e não bandidos.
Para confirmarmos essa ideia, verifica-se que as armas utilizadas pelo atirador eram roubadas, e não registradas em seu nome. Fala-se sobre o fato de Wellington de Oliveira ter sido vítima de bullying e ser portador de transtornos mentais, mas nos esquecemos de que as escolas estão pouco aparelhadas, em termos humanos, para lidar com a superação deste problema.
Entretanto, nesse momento, devolvo aqui algumas das perguntas, com outros questionamentos. Solidarizo-me com as famílias das vítimas e, enquanto ser humano, choca-me tal situação, mas não posso deixar de me perguntar sobre outros assassinatos que ocorrem diariamente. E nem me refiro aos acertos de contas entre delinquentes, ou dos assaltos que terminam em morte das vítimas. Quantos homicídios são cometidos pelo governo e sociedade no dia a dia, ao permitir que a pobreza e mendicância continuem a existir. Essas vítimas não são notícia, pois morrem no silêncio de suas casas, sem chocar a sociedade.
Quantas mortes de inocentes, tal como as crianças do Rio, ocorrem em filas de hospitais, de postos de saúde, em virtude do péssimo pagamento de médicos, da falta de pessoal, da ausência de medidas efetivas que minimizem a necessidade de se recorrer ao sistema público de saúde.
Não perdendo o raciocínio, pensemos no tamanho da assistência pública de saúde para pessoas com transtornos mentais, que permitem que indivíduos com algum grau de deficiência permaneçam sem atendimento, sem amparo, e que possam agir e viver sem assistência, cometendo atos extremados como o que acabamos de vivenciar.
A tragédia de Realengo, que ocupou as manchetes dos principais jornais ao longo do mundo, deixa uma mensagem muito clara, mas ao mesmo tempo difícil de ser entendida. Estamos completamente anestesiados perante a violência cotidiana; deixamos que a mesma se entranhasse em nosso dia a dia com a falsa premissa de que isto é normal e, infelizmente, não vemos solução. É demagogia mostrar ações exemplares como no caso do Rio de Janeiro, sendo que, nesse mesmo dia, inúmeros óbitos foram registrados em virtude de falta de saneamento, da falta de educação da população, da ausência do Estado, e nem por isso ficamos mais chocados. Simplesmente, ignoramos.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

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