ESPAÇO ABERTO
Os puros e os impuros do Realengo
Para Welington Menezes de Oliveira, o jovem que invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo (RJ) e matou doze crianças, a sociedade se divide em duas classes: a dos puros e dos impuros. Dentre os puros, é claro, estava ele próprio, além de todos os castos, dos não fornicadores e os não adúlteros. Do outro lado, os demais seres, incluindo as crianças, especialmente as meninas.
Especialistas tentam montar um quebra cabeça que possa fornecer dados para entender o comportamento do franco-atirador e nessa trama se deparam com um mundo obscuro, onde os elementos mais confundem do que esclarecem. É óbvio, pois não se trata de um mundo comum como esse que conhecemos. O mundo do assassino Wellington foi construído por ele mesmo, sobre os alicerces das suas amarguras, dos seus medos e das suas dores.
Na nossa análise do perfil psicológico do jovem anônimo, que de repente provocou um tsunami emocional sem precedentes no povo brasileiro, não podemos deixar de considerar os aspectos inerentes a sua sexualidade, tal qual fica evidente na carta que ele deixou, restringindo aos ''puros'' o direito de tocá-lo após morto. Outro aspecto se refere ao comportamento que seus algozes dos tempos de escola aludiam como sendo de homossexual e por isso o maltratavam.
Gay ou hetero, casto ou não casto, religioso ou não. Esses aspectos podem fazer diferença para quem analisa o crime pela ótica da racionalidade, mas não para quem procura entender pela ótica do próprio criminoso, uma personalidade cindida, típica de quem buscou refúgio num mundo imaginário, povoado por monstros, heróis alados e santos de todos os credos. Um mundo construído para ser o refúgio perfeito para o humano/desumanizado que se esforça para continuar existindo apesar de toda a fragmentação interna. Assim nasce um esquizofrênico, um profeta do submundo da loucura, um filósofo existencialista da degradação mental.
Esse ser desconhecido, orientado por vozes estranhas, é capaz de atirar em crianças indefesas ao mesmo tempo em que manifesta arroubos piedosos em prol dos animais abandonados. Para ele tudo é possível, inclusive voltar para o colo perdido da sua mãe que ôdorme" numa sepultura. Só ela poderá ampará-lo e acalentá-lo enquanto o resto do mundo o despreza e o humilha. Aliás, a sensação de abandono que o acompanhou em vida se repete na morte quando até o momento nenhum familiar compareceu para reconhecimento formal do corpo.
Mas o que de fato pode ter influído para originar a sua percepção distorcida da realidade? Destacamos alguns pontos relevantes: o primeiro a considerar é a possibilidade da herança dos traços esquizofrênicos da própria mãe, se não por determinação genética, pela instabilidade emocional e afetiva que essa doença pode provocar. Podemos também inferir que muito antes do bullying sofrido na escola já se havia definido nele o padrão de ''pureza'' que mais tarde viria a fazer parte do arcabouço da sua psicose. Essa pureza funcionaria como o antídoto para a doença mental. A mensagem inconsciente poderia ser mais ou menos essa: ''Só os castos são mentalmente sadios''.
Castidade e pureza, no seu constructo interno, se mesclavam a elementos religiosos numa tentativa de restituir a si o paraíso perdido. O bullying certamente foi real, mas não a causa dos seus conflitos e sim consequência deles. Outro ponto importante é a ausência de menção à figura paterna, biológico ou adotivo, o que pode ser uma importante chave para a compreendermos a construção da sua identidade sexual.
De real mesmo nessa trama temos apenas a tragédia que vitimou doze inocentes e a certeza de que nunca estaremos seguros contra esse tipo de acontecimento, seja nas escolas, em casa, nas igrejas, pois a sociedade sempre estará à mercê da ''lógica irreal'' dos lunáticos que ela mesma constrói.
JAIR QUEIROZ é pós-graduado em Segurança Pública e psicólogo clínico em Londrina





