ESPAÇO ABERTO
'Matamos o tempo, o tempo nos enterra'
Quando Machado de Assis escreveu a frase que dá título a este artigo, ele não imaginava que, apesar do tom fúnebre, ela seria imortal. Podemos extrair diferentes significados e reflexões. Vou seguir o caminho do meu convívio.
O tempo se tornou tão precioso que não podemos mais perdê-lo, sob o risco de sofrermos. Sim, alguém já disse que o estresse é, em grande parte, fruto daquilo que não resolvemos. Quanta ansiedade, quanta culpa carregamos. Perdemos oportunidades, amigos, convívios, etc. Depois vamos aos médicos e tomamos remédios.
Como lutar contra isso? Devemos primeiro eliminar os principais ''ladrões do nosso tempo''. Cada um conhece muito bem sua realidade. Vou destacar somente dois: a TV e a internet. Um simples controle remoto, com muitas alternativas. Quase uma vida vegetativa (dependentes de máquinas). Temos o controle, mas o perdemos nas próprias mãos. Muitas opções que não acrescentam nada. Alguns programas que até causam ansiedade ou raiva .
O outro vilão é a internet, de rapidez e utilidade indiscutível, mas de qualidade questionável, dependendo do piloto desta máquina. Passamos horas navegando. Saímos exaustos com a sensação de uma avalanche de informações não assimiladas. Na verdade, muitas vezes ficamos ''ao sabor do vento'' ou até com muito ''vento'' na cabeça.
Uma vez reconhecidos os ''vilões'', temos que ser fortes para dominá-los. Nossa melhor estratégia: uma agenda com dia e hora. Vamos dar tempo ao tempo. Um tempo para cada coisa (de qualidade). Até mesmo um tempo para o televisor e para a internet e para o e-mail.
Precisamos dormir bem e cuidar da saúde. Isto é prioridade máxima. Também o tempo da família, das conversas com trocas de experiências (isto está em extinção). O tempo do trabalho ou do estudo tomará grande parte da agenda. No entanto, alguns misturam tudo. Cochilam no trabalho ou na escola. Outros dormem com o notebook, dirigem com o celular. Computador ou TV no quarto não se justifica. Roubamos o tempo do precioso descanso, que nos assegura a saúde.
Estava esquecendo: alguns estudantes não querem mais estudar, somente navegar. Comumente caem numa armadilha. A indústria da mídia aplica bem o provérbio: ''Uma imagem vale mais que mil palavras''. São frases tentadoras, recomendando novos programas ou produtos: ''Promoção, não perca, últimas unidades, compre, compre, somente até a meia-noite, etc''. Somos envolvidos. Temos que ser fortes. É campo minado e merece mais cuidado.
Falta também o tempo da reflexão. Somente você. Pode ser numa rede, numa cadeira confortável. O tempo da análise, do planejamento. Busque e identifique este seu cantinho especial e relaxe (alguns têm medo disto).
No começo, comentei que podemos extrair diferentes reflexões. Vou encerrar com esta, de Dalai Lama: ''O que mais me surpreende na humanidade são os homens, porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde e, por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido...''
Conscientes de que tempo é ouro, vamos lapidar nossa joia preciosa e dominar os ''vilões do tempo''. Depois, agendadas nossas prioridades e metas, vamos comemorar, pois ainda há tempo .
AMARILDO PASINI é professor do departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina





