ESPAÇO ABERTO
Casal, após tratamento contra infertilidade, dá à luz a trigêmeas e resolve deixar (pelo menos) um dos bebês na maternidade... A notícia mais parecia uma piada de mau gosto, entretanto, era mais uma tragédia dos tempos modernos. O desejo da maternidade satisfeito de forma artificial, pouco depois perdeu a graça, então, resolveram devolver o brinquedo ao Papai Noel.
A dificuldade em engravidar pode levar à busca de diagnósticos somáticos e respectivos tratamentos que viabilizem a maternidade. As intervenções contra a infertilidade demandam desejo, disposição, tempo e recursos financeiros bastante significativos. Obstáculos podem ser transpostos quando o casal tem recursos físicos e materiais suficientes. Entretanto, fica uma lacuna a ser preenchida: descobrir o que leva o casal a se submeter a todo o doloroso processo.
Algumas pessoas evitam a gravidez motivadas por questões pessoais e/ou profissionais, chegando até a buscar o aborto, caso aconteça em momentos pouco propícios, com a certeza de que poderão, a qualquer momento, encomendar o filho. Entretanto, podem ser surpreendidas com a demora ou até impossibilidade de realização do projeto filhos. Muitas vezes, a mulher já se encontra numa faixa etária onde o tempo restante para usufruir de uma gravidez tranquila é restrito. O casal fica ansioso, desencadeando até problemas para se relacionar sexualmente, de forma tal que a gestação, que poderia ocorrer naturalmente, vai sendo adiada à revelia dos seus (aparentes) desejos.
A ferida narcísica por não conseguir ter filhos pode ser tão insuportável que impulsiona a busca por procedimentos invasivos em prol da sonhada gravidez. Entretanto, a maternidade não é feita apenas de uma barriga grande e um quarto bem decorado. Isso é apenas o começo de uma interminável labuta. Se não houver maturidade suficiente para suportar os limites que a vida impõe, como poderão aceitar que o filho encomendado venha com defeito de fábrica? Nem tão belo, nem tão dócil, sem botão para desligar quando cansamos de brincar com ele...
Vencer a infertilidade implica na possibilidade de gerar bebês em série, levando à necessidade de escolher quantos e quais embriões serão implantados e descartados. Logicamente, demandando reflexões éticas. A chegada de um bebê mobiliza sentimentos nunca antes vivenciados e pode levar a consequências desastrosas para a relação conjugal, sendo que o nascimento de múltiplos (gêmeos, trigêmeos...) aumenta a possibilidade delas. Se o casal, mesmo conhecendo os prós e os contra dos tratamentos, possui desejo e maturidade suficientes para acolher o(s) filho(s) que hão de nascer, o sucesso da empreitada pode ser alcançado. Se houver apenas desejo de superar a frustração, a chance de aumentar os sofrimentos é elevada.
Não desejo aqui julgar qualquer casal, mas alertar para a necessidade de realização do pré-natal psicológico, antes que o tratamento contra a infertilidade aconteça. A partir de então pode-se refletir sobre: motivação; riscos do tratamento; capacidade de tolerância; implicações do nascimento de múltiplos; alterações na vida pessoal, conjugal e profissional. Se o casal estiver bem preparado é possível, sim, vivenciar a maternidade/paternidade responsável e não apenas a insanidade de realizar desejos a qualquer custo.
MARIA ELIZABETH BARRETO DE PINHO TAVARES é doutora em Psicologia Clínica pela USP e psicóloga em Londrina
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