ESPAÇO ABERTO
Pessoas inviáveis e descartáveis
Um caso de rejeição de bebê nascido de inseminação artificial escandaliza especialistas em Curitiba. Um casal realizou tratamento de reprodução assistida. Logo no início da gestação, a mulher ficou sabendo que engravidaram de trigêmeas. O pai, no entanto, disse que só queria duas crianças. Os bebês nasceram em uma maternidade de Curitiba e o pai tentou abandonar uma das meninas. Afirmou que levaria para casa apenas duas. Foi assim que a imprensa nacional e internacional apresentou a notícia.
Quando pensamos em que isto aconteceu somente alguns dias atrás aqui tão perto de nós, ficamos como que horrorizados ou simplesmente sem palavras. Com o passar do tempo, termos como ''inviáveis'' e ''descartáveis'', que na minha infância somente se referiam aos brinquedos, alimentos ou coisas, foram tomando uma dimensão tal que agora são utilizados para fazer referência ao próprio ser humano.
Desconheço o pai desta criança, não faço ideia do drama psicológico que pode passar uma pessoa ao saber que devido a uma gravidez não somente esperava um filho e sim três.
Sabemos que a situação de muitas famílias para educar um filho ultrapassa os seus limites econômicos, culturais e, muitas vezes, afetivos. Mas chegar ao ponto de pretender abandonar uma delas parece-me simplesmente inadmissível.
A reprodução assistida que não é o caminho mais viável para gerar um filho, já faz parte de um processo de seleção eugenética que manipula e elimina a própria autonomia do ser. Sendo assim, se desde o primeiro momento ''sou'' selecionado devido as minhas características ou devido as minhas possibilidades, na fortuita hipótese nascer também se tornou uma mera seleção.
Supõe-se que os casais que procuram a reprodução assistida o fazem de forma livre e espontânea, no anseio de receber os filhos que a natureza divina por alguma razão não lhes concedeu. Então, quem afirmar simplesmente que após saber que no lugar de um vem três filhos e negar a possibilidade de que este seja reconhecido como seu fruto, da mesma forma poderia não ter aceitado as outras duas.
São muitos os que hoje são considerados inviáveis; muitos que devido a sua condição não podem ser aceitos; muitos que por serem simplesmente pessoas não possuem o direito de manifestar-se.
O médico, que acompanhou o caso, afirmou que em seus 36 anos de profissão nunca viu algo parecido: de o pai rejeitar os filhos ou um dos filhos, após o casal se submeter à técnica de inseminação artificial. Nós também não tínhamos visto isto. Sabíamos que muitos abandonavam seus filhos na hora do parto, os jogavam em latões de lixo, pois devido a não ter métodos suficientemente eficazes ficavam grávidos de forma irresponsável.
Critica-se de forma mordaz a postura da Igreja Católica que impede o uso de anticoncepcionais aos seus fiéis e, por isso, a sociedade anda tão desnorteada. Mas saber que uma pessoa pode ser rejeitada após ser selecionada é algo fora do comum.
Esperamos que, na medida do possível, nossa vida fosse respeitada e sustentada no amor. A ti menina que não foste aceita, quero que saibas que muitos te amam simplesmente por isso mesmo, por que foi rejeitada.
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é doutor em Teologia Moral e padre em Londrina





