7 de abril: Dia da Independência?

Não se assustem, não me enganei! Com os ensinamentos de meus pais e do Colégio Santa Maria, onde dei meus primeiros passos de alfabetização, aprendi que o Brasil teve sua Independência em 7 de setembro e não em abril! Ah! é o dia da dita paralisação ''Nacional dos médicos'' em represália aos famigerados planos de saúde. Não quero aqui ratificar o que muitos já sabem: que os planos de saúde em sua grande maioria são abusivos aos clientes, isso é explícito. O que precisamos mostrar é o que fica implícito: nós médicos somos tratados sempre como vilões do atendimento e, que para se ter um salário compatível com o que a profissão nos cobra, somos obrigados muitas vezes a atender em situações embaraçosas, sacrificantes e humilhantes. Não se informa, por exemplo na minha especialidade, que um paciente com ''joanete'' necessita de tratamento cirúrgico e a correção do problema e da estética pelo seu médico custaria cerca de R$ 150, ou que aquela antiga bursite associada a uma doença do tendão do ombro, se for resolvida cirurgicamente, custe talvez cerca de R$ 280 a R$ 300.
Acho que por isso talvez tenha perdido o ''entusiasmo de andar de branco''. Esse entusiasmo vem diminuindo e nossos governantes não se atentam para isso. Por vezes, médicos exemplares têm que adotar condutas meramente paliativas como soluções temporárias em razão de: ''o convênio não libera'', ''o convênio não cobre tal procedimento'', e isso é bastante desestimulante.
Dia desses havia um anúncio em um jornal: ''Procura-se garota de boa aparência para trabalhar em boate, possibilidade de ganho entre R$ 6 mil e R$ 8 mil''. E centímetros abaixo, outro anúncio: ''Prefeitura contrata médicos para cumprimento em Programa de Saúde da Família, 20 horas semanais, salário cerca de R$ 3.500''. É para rir ou chorar? Melhor nenhuma alternativa. Continuarei a atender meus pacientes da melhor forma possível, mas sem esquecer que devemos sim é ser bem remunerados. Pensem nisso!

LUDOVICO PIERI NETO é médico ortopedista em Londrina



Um pouco além do olhar comum

Num novelo de linha já estão delineados belos bordados. Na pedra adormecem esculturas, já com todas as suas formas. Nas areias estão armazenados, em vida latente, delicados vitrais e candelabros. Nas tintas residem as pinturas, bastando ordená-las. Os minérios guardam entesourados os motores, as engrenagens, as ferramentas, os foguetes espaciais, o televisor, o celular. E também os tanques de guerra. No tronco das árvores repousam mesas, cadeiras, armários, cabos de enxadas.
Meu violão foi extraído de um desses troncos. Ele já residia ali, esperando que a mão humana o revelasse - o homem servindo a uma das funções da árvore e, em reciprocidade, a árvore servindo às necessidades do homem. Se eu queimo uma árvore, queimo muitos violões, queimo mobiliário, queimo berços e altares.
Na pele dos animais estão nossos sapatos, cintos, bolsas, estofados e adornos. (A propósito, talvez ninguém, no íntimo, tenha se lembrado de agradecer a eles por isso, ao menos como exercício de gratidão). Em suas folhas, cascas e raízes, processadas ou em estado natural, as plantas guardam a substância das curas.
O ramo ainda tenro da roseira já armazena a rosa. Numa minúscula semente estão o tronco, os galhos, as folhas, as flores e os frutos. E mais sementes, para que se perpetue a espécie e, assim, de apenas uma dessas partículas formem-se imensuráveis florestas. Se abrimos a semente, não vamos encontrar nada dentro dela, mas tudo já está lá.
O tempo e a natureza fertilizam a vida, e sabemos que toda a tecnologia e o alimento à mesa são resultantes do que se extrai do solo. Pergunto novamente quantos de nós agradecem à generosa mãe Terra por isso. Talvez, pensemos que este corpo que flutua no espaço e nos serve de morada e sustentação da vida não tenha sensibilidade.
Nos metais nobres que jazem nas entranhas do planeta repousam virtualmente anéis e colares, coroas e tiaras. No ventre da parreira adormece o vinho. Cada célula humana contém a síntese do Universo. E na essência de todos os seres vivos e de todas as coisas está Deus. Não o vemos, mas Ele está ali.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup