ESPAÇO ABERTO
Paralisação nacional dos médicos
Neste momento em que enfrentamos grave crise no setor saúde em Londrina e no Brasil, gostaria de externar minha indignação e angústia em relação à situação absurda e deplorável em que a classe médica se encontra, apesar da visão utópica e romântica da sociedade que acredita que o médico é um profissional extremamente técnico e que recebe altos salários e honorários por seus serviços. Infelizmente, a realidade é muito diferente.
Em relação aos salários e honorários médicos, é necessário uma reflexão séria da sociedade. Houve uma proliferação de escolas médicas no Brasil, a maioria sem condições adequadas e pior, sem critérios definidos que não o político, gerando um número exagerado de médicos com formação deficiente. E, há poucos dias, anunciaram mais uma escola de medicina para Londrina. Os dados mostram que metade dos médicos não consegue fazer residência médica. É algo como doze mil médicos formados anualmente no país, e apenas sete mil vagas de residência médica reconhecidas pelo MEC.
O resultado não poderia ser diferente, pois os políticos contam com estes médicos malformados para aceitarem salários de R$ 2.800,00 mensais como propostos pela Prefeitura de Londrina e consultas de R$ 7,00 pagas pelo SUS, quando o piso nacional proposto por entidades médicas é de R$ 9.000,00 e o preço de uma consulta médica proposta pela Associação Médica Brasileira (AMB) é R$ 65,00, sendo estes valores considerados os mínimos éticos aceitáveis pelo Conselho Federal de Medicina.
Existe um abismo entre o que o poder público paga aos médicos e aquilo que consideramos o mínimo aceitável. Creio que o motivo de tanto descaso com o trabalho médico se deva ao fato de que atendemos a seres humanos, nos momentos em que se encontram mais vulneráveis. E o ser humano está cada vez mais desvalorizado no mundo moderno, principalmente, pelos políticos. Mas os planos de saúde exploram os médicos da mesma forma, e ainda limitam o livre exercício da medicina, com inúmeras restrições a exames, e atrasos no pagamento de honorários, e ainda adotam uma tabela da AMB de 1996, sem reajustes - estamos falando de 15 anos! - e o SAS (antigo IPE -administrado em Londrina pela Santa Casa) paga esta tabela com deságio de 10%. Mesmo a Unimed não consegue valorizar os honorários médicos como se esperava, e nem mesmo pagar a tabela proposta pelas entidades médicas nacionais. Nos últimos dois anos, sequer conseguiu repor as perdas inflacionárias, principalmente devido a imposições da Agência Nacional de Saúde (ANS), que obrigou as operadoras de planos de saúde a disponibilizar novas e caríssimas tecnologias e serviços, sem permitir que estes custos fossem transferidos aos usuários.
A ANS permite a exploração acintosa dos médicos pelos planos de saúde, sem realizar qualquer mediação, o que demonstra total descaso com a classe médica. No sistema Unimed o impacto destas medidas foi severo e repercutiu nos honorários médicos que são definidos após pagamento de todas as outras despesas da cooperativa. Em resumo, o sonho dos anos 70 não se realizou entre os médicos.
Neste momento em que a classe médica se manifesta através de suas entidades representativas e promove o Dia Nacional de Paralisação no atendimento aos planos de saúde amanhã, exceto para casos de urgência e emergência, é uma grande oportunidade para refletirmos sobre a necessidade de interrompermos esta ciranda nefasta de descaso e negligência na condução do sistema de saúde em nosso país e, particularmente, em Londrina, cobrando atitudes concretas do poder público e não apenas ações emergenciais como a terceirização na contratação de médicos proposta pela atual administração. E ainda exigindo que o Ministério Público se manifeste de maneira a agilizar a resolução dessa situação lamentável. E não tenham dúvidas, se um médico deixar de atender a um plano de saúde, ainda continuará sendo um médico, porém os planos de saúde e a sociedade não vivem sem seus médicos!
FLÁVIO LÚCIO AMARAL é médico anestesiologista em Londrina





