ESPAÇO ABERTO
Recolhendo origamis
Ao olhar com concentração para uma peça de artesanato realmente original - não uma cópia - por vezes é possível enxergar características muito pessoais da pessoa que a criou. Refiro-me não somente ao mais óbvio, como o estado de espírito do artesão e sua especialidade técnica, mas também a relação mais atávica que este tem com sua terra e seu povo.
Por isso não acredito que a cópia do artesanato brasileiro por outros povos agrade verdadeiramente os consumidores que a compram. Uma peça indígena feita na China é tão estéril quanto uma réplica de artefato Ming feito numa fábrica de São Paulo.
Nesse ponto, o Norte do Paraná é particularmente rico em manifestações originais de cultura que determinam a formulação de um artesanato de elevada qualidade. Além da herança pré-colombiana dos indígenas, contamos com colonizações fortíssimas de alemães, italianos, ingleses, ucranianos e de vários outros povos que enriqueceram nossa cultura, economia e arte nas últimas décadas, cada qual trazendo suas especificidades no campo produtivo, cultural e artístico.
Em especial me dirijo aos japoneses, lembrando do nipônico origami: as dobras do papel são ao mesmo tempo precisas, delicadas e perfeitas, criando imagens que vão além da imaginação, o que reflete o caráter e engenhosidade daquele povo.
O Brasil, para quem não sabe, só perde para o próprio Japão em termos de população nipônica. E o Norte do Paraná é o segundo local de maior concentração desse povo em nosso país. Eles vieram para cá principalmente para trabalhar na agricultura. Mas a engenhosidade, organização, precisão e genialidade fizeram com que esse povo não ficasse muito tempo como simples lavradores.
Os japoneses prosperaram e fizeram Londrina e o Norte do Paraná prosperarem juntos, ao mesmo tempo em que o próprio Japão se transformava no segundo país mais rico do mundo.
E veja que ironia do destino: tanta habilidade, precisão, destreza e inteligência quase nada pôde fazer diante dos tremores e tsunamis que afetaram parte do país. Pior ainda é a volta do trauma da ameaça nuclear, com água e alimentos contaminados, além do próprio ar.
Pelo que vemos na imprensa, os riscos de agravamento da situação radioativa são consideráveis. Queira Deus que tudo não passe de um susto. Mas e se não for assim? Imagine se os seus pais, irmãos e parentes próximos estivessem lá, vivendo tamanho terror? O que você faria? Eu, no mínimo, abriria as portas da minha casa para abrigar a todos até que o perigo passasse, ou até que cada um deles tomasse rumo na vida a partir de um novo lar.
Irmãos de nossos irmãos estão em flagelo. Provavelmente tudo seja superado nos próximos meses. Mas seria muito bom para eles e para nós, desde já, abrir as portas para os nipônicos que quiserem se integrar ao Brasil. Nosso atrativo imediato para eles são as terras brasileiras, estáveis em termos geológicos. Por outro lado, nosso país ainda é necessitado de gente com precisão, disciplina, engenhosidade e conhecimento, predicados que perfazem a característica padrão dos japoneses.
Parece que estamos diante da chance de um novo casamento perfeito. Depois do Japão, naturalmente é no Brasil que a maioria dos japoneses tenderia a se sentir mais em casa. Então, presidente Dilma Rousseff, governador Beto Richa e prefeito Barbosa Neto, vamos fazer o convite?
DENISE MUCCI é designer em Londrina





