O terremoto e o tsunami no Japão tiveram consequências catastróficas, algo já destacado em toda a mídia mundial. Porém, o que chama atenção agora é o perigo nuclear que tal incidente acarretou, com o incêndio e explosão em uma das usinas e o risco iminente para as outras que estão localizadas na região mais atingida pelo maremoto. Diante disso, torna-se indispensável retomar a discussão sobre as vantagens e desvantagens da energia nuclear. De fato, as usinas nucleares, apesar de toda sua tecnologia de ponta, de métodos de segurança aperfeiçoados, pessoal capacitado, representam um perigo constante à população e ao meio ambiente de seu entorno.
  As usinas nucleares são questionadas por grupos ambientalistas, cientistas e políticos desde a decada de 1970, quando a proliferação do uso deste tipo de fonte energética tornaria o planeta inteiro numa grande bomba atômica. Qualquer catastrofe nestas usinas levaria a uma série de consequências locais, regionais e mundiais, desde a contaminação de uma pequena região até ao chamado ‘‘Inverno Nuclear’’, uma teoria muito discutida no meio científico dos anos 1980, que seria o resfriamento das temperaturas no planeta, entre -20ºC e -47ºC, provocado por uma ‘‘nuvem’’ de poeira derivada de uma hecatombe nuclear que tamparia a entrada de raios solares na superfície do planeta por um período de dois anos e extinguindo todas as formas de vida.
  Segundo especialistas, os principais problemas com a energia nuclear em uma situação normal, ou seja, quando não há acidentes, vem em dois momentos: a extração do material radiativo e o despojo do ‘‘lixo’’ resultante do processo de produção de energia. Ambos os casos, em geral, apresentam efeitos a longo prazo, não se comparando aqueles causados pelas explosões de reatores e vazamentos.
  O histórico de acidentes neste tipo de fonte energética pode ser considerado raro, porém, em todos os casos registrados e divulgados, suas consequências foram consideráveis para a vida humana. No final da década de 1970, nos EUA, aconteceu o acidente na usina de Three Mile Island, localizada em uma região próxima à capital do país, ocasionado por uma bolha de hidrogênio que surgiu no reator, causando o derretimento do núcleo e o vazamento de material radioativo, levando mais de 600 mil pessoas a abandonarem suas casas e se estabelecerem em outros lugares.
  Alguns anos depois, em 1986, na então União Soviética, a usina nuclear de Chernobyl sofreu uma explosão no reator, que levou à desocupação da região, contaminação ambiental, provocando doenças nas pessoas atingidas e inúmeras mortes, no total 326 mil pessoas foram deslocadas e uma área de 4.300 km2 foi isolada, sendo que o total de 29.200 km2 foi considerado como espaço restrito. Por muitos e muitos anos, a região de Chernobyl não poderá ser ocupada novamente.
  Por esta mesma época, no Brasil tivemos dois casos de problemas com a radiação. O primeiro, em setembro de 1987, quando barris de Césio 137, material radioativo de origem hospitalar e bastante disseminado, foram acidentalmente desenterrados por populares em Goiânia, provocando mortes e a contaminação de pessoas. E em segundo, apesar de ser um caso isolado, foi o vazamento na usina de Angra, de pequena escala, mas que não foi divulgado pelos responsáveis, vindo a público anos depois.
  O acidente nuclear no Japão está demonstrando que há hoje formas de monitoramento de possíveis vazamentos, no controle das explosões dos núcleos das usinas e dos efeitos imediatos para os seres humanos e o meio ambiente, mesmo assim, o perigo se mantêm. No Brasil, em 2008 o governo federal pretendia construir uma usina nuclear por ano pelos próximos cinquenta anos, descontando a megalomania do projeto, pergunto: quem estaria disposto a viver ao lado desta vizinha?

ROGER D. COLACIOS é historiador em Londrina e doutorando em História Social pela USP

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