ESPAÇO ABERTO
Prova específica de Medicina da UEL
Qual o objetivo de uma prova específica no processo de seleção dos candidatos a um curso de graduação em uma universidade pública?
Não consigo compreender o que motiva um colegiado a eleger como prova específica de um curso de Medicina a disciplina inglês. Não pela disciplina, mas pela própria abrangência da mesma. A maioria dos cursos possui uma vasta bibliografia na língua inglesa, inclusive a física, a biologia, as engenharias, arquitetura, sem falar das ciências humanas. Os artigos científicos têm como metodologia a tradução para a língua inglesa, pois o objetivo é tornar a informação acessível mundialmente. Não é mérito de um profissional médico possuir domínio da língua inglesa, mas uma urgência de nossa sociedade globalizada. Na verdade tanto o inglês como o português são formas legítimas de comunicação e, portanto, não se encaixam como conhecimento específico de um determinado curso, exceto obviamente para o curso de letras.
A não ser que o intuito do colegiado seja incorporar o curso de Medicina a uma elite social, pois sabemos que as pessoas de um poder aquisitivo melhor propiciam a seus filhos o acesso a outras línguas desde a infância.
Para uma universidade pública essa atitude desaponta a expectativa de nossa sociedade e vai na contramão da tentativa de disseminar oportunidades aos jovens independentemente dos recursos da sua classe social. Alguém poderia mencionar o sistema de cotas, mas quem já concorreu nesse sistema e conseguiu sua vaga conheceu, às vezes, até de forma traumática, os efeitos discriminatórios dessa medida.
Sabemos que não é incomum em outras universidades do país associar ao curso de Medicina uma prova específica de disciplinas relacionadas à área das ciências humanas como a Filosofia ou a Sociologia. Será possível que em um curso de graduação de Medicina os professores não demonstrem que a sua profissão tem caráter essencialmente social? A Medicina não tem sentido se não estiver associada ao ser humano em todos os sentidos e em razão disso reconheço a importância do estudo das estruturas sociais e psicológicas que permeiam a relação médico/paciente, mas daí ser imprescindível ao profissional conhecer as escolas filosóficas para realizar dignamente seu trabalho é demais. Não é preciso um grande esforço mental para perceber que a escolha do inglês não foi nem de longe pertinente. Muito mais adequada é a parceria entre a sociologia e a prática médica do que o inglês.
Na própria descrição das disciplinas publicada no site da UEL a sociologia aparece como específica em 21 cursos e o inglês em 3 (Secretariado Executivo, Letras e Medicina). É totalmente estranho que a grande maioria dos colegiados, inclusive da área de saúde, percebam a importância da sociologia em seus cursos e a Medicina, o inglês.
Mesmo querendo ser diferente, é necessário ter bom senso. Que não seja a sociologia, então que seja a física, pois o conhecimento do corpo humano passa por todas as áreas dessa disciplina. Entendo que um estudante que se apropria de um conhecimento físico mais detalhado possa desenvolver os conteúdos básicos com menos dificuldades devido à própria metodologia de estudo exigida pela disciplina física obtendo um rendimento e uma compreensão melhor do curso de Medicina. Isso seria uma medida mais eficaz e menos elitista, já que a física não é uma disciplina que necessite de grandes investimentos, exceto, é claro, aquele que todos nós temos que realizar quando queremos ingressar em uma universidade, estudar.
JAYME MARRONE é professor e mestre em ensino em Londrina





