ESPAÇO ABERTO
Quaresma, um retiro espiritual
Na quaresma tudo nos convida à oração, à conversão e à convivência fraterna. Caminhar, sofrer com Jesus, estar com Ele, deixar-se tocar pela paixão do Senhor, é o objetivo da quaresma. O mundo inteiro sente-se atraído pelo poder da cruz e do sangue redentor. Este é o objetivo máximo da quaresma, ou seja, cativar-nos, atrair-nos, encantar-nos por Jesus Cristo. O bom ladrão e o centurião romano que era pagão, expressaram sua fascinação por Jesus de Nazaré: ''Ele não fez mal algum'', diz o ladrão, ''Este homem era inocente, verdadeiramente é o Filho de Deus'', confessa o centurião.
As personagens da paixão do Senhor representam nossa realidade mais profunda. Na verdade já nos aconteceu imitar Judas, Herodes, Caifaz, Pilatos. Por outro lado, o arrependimento de Pedro, a solidariedade de Cirineu, a compaixão de Verônica e das filhas de Jerusalém são experiências que fazemos no decorrer da vida. Com Maria, aprendemos a permanecer de pé ao pé da cruz, a não desmoronar, nem desesperar na hora da provação.
Somos cativados pela serenidade, paciência, nobreza, maturidade e humanismo de Jesus durante toda a paixão. A quaresma é um retiro espiritual, uma catequese, uma escola que nos torna discípulos do crucificado. Jesus perdoa os algozes, ensina o soldado a não espancar, cura a orelha de Malco, consola as filhas de Jerusalém, silencia diante da maldade de Herodes e desabafa-se com o Pai.
Na paixão do Senhor descobrimos a altura, largura, cumprimento e profundidade do amor de Deus. Por outro lado, revela-se até onde pode chegar a animalidade e crueldade humanas. Soltam Barrabás, o homicida, baderneiro, bandido e salteador e condenam o inocente, o justo, o santo, o benfeitor de todos, Jesus de Nazaré. Ele foi marcado para morrer, algemado como bandido, colocado entre os malfeitores. É o império das trevas.
No nosso retiro quaresmal podemos contemplar realidades chocantes como: o Pai silencia, os discípulos dormem e fogem, o diabo tenta, as autoridades condenam, os soldados torturam e zombam, os sacerdotes acusam, a multidão grita contra Jesus, falsas testemunhas são compradas para depor contra o Senhor.
Como não encontrar na paixão do Senhor o remédio para nossas feridas e maldades, a luz para nossos passos, a consolação e esperança em nossas dores, a libertação do mal? O retiro da quaresma pode motivar-nos a contemplar as chagas, o sangue, as torturas, os vexames, as humilhações pelas quais Jesus passou. Ele porém irradia humanismo, compaixão, nobreza, sensibilidade para com todos.
O segredo que permitiu Jesus chegar até o fim foi sua atitude filial diante do Pai, a oração constante, a fé inabalável. Sofre rezando, padece evangelizando, carrega a cruz ensinando. Muitos foram os sofrimentos espirituais de Jesus: abandono, incompreensão, insucesso, oposição, falência, angústia, fraqueza, rejeição, noite escura. Acrescenta-se ainda os sofrimentos morais: traição, negação, mentiras, insultos, injurias, gozações, humilhações, prisão com algemas, processos falsos, jogo de interesses e de dinheiro.
A paixão de Jesus continua no mundo. Sejamos como Cirineu que ajuda a carregar os fardos dos irmãos. Não crucifiquemos a ninguém. Seja sim crucificado o mal, o pecado, a carne.
O preço do pecado foi muito alto, mas, o amor foi maior. Cabe então a pergunta: que fiz, que faço, que farei por Jesus? Já sabemos o que Ele nos ordenou fazer: amar-nos uns aos outros. Bom retiro. Que esta quaresma nos torne mais irmão e por isso mesmo cuidadores da vida na terra.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





