ESPAÇO ABERTO
Som Autoral em Extinção
A melhor forma de se dominar e manipular um povo é, primeiramente, destruindo seus traços culturais, aniquilando tudo que lhe é peculiar, característico, dissolvendo o que lhe confere identidade. Londrina, que em outros tempos, esbanjava criatividade nos festivais, que teve entre os seus, nomes como Neusa Pinheiro, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, hoje amarga o ostracismo da música autoral. Conta-se nos dedos os grupos que desenvolvem projetos autorais em uma cidade de mais de meio milhão de habitantes.
As casas noturnas, mesmo os ditos espaços alternativos, abrem espaço sim para a música própria, desde que, seja numa quarta-feira ou em um final de semana, onde, além de tocar gratuitamente, se você, músico, for consumir alguma coisa, eles descontam os 10% do garçom. Isso porque a banda que iriam importar de qualquer outro lugar do Brasil e pagar um cachê considerável, desistiu de última hora.
Após 12 anos de apresentações nesta cidade e região, ora como radinho de fundo para conversa de boteco, ora como reprodutor de hits nos bailes, me vem à mente uma passagem do Nelson Mota em Noites Tropicais, quando cita o empresário de Wilson Simonal afirmando que o público não aplaude o artista mais que a si mesmo quando se vê conhecedor de uma dada canção. Tributos, covers, hits. Quem tem paciência e disposição para o que nunca se ouviu antes, para o que nunca se viu nos grandes meios de comunicação.
Belchior em sua canção Arte Final pergunta: alguém se atreve a ir comigo além desse shopping center? Talvez o shopping dos enlatados, dos formatados, dos subsidiados pela indústria do entretenimento. Tom Zé comenta que algumas pessoas nasceram com defeito de fabricação e, talvez aqui, em nossa pequena Londres, o maior defeito seja o atrevimento daqueles que insistem no som autoral, na busca de uma identidade regional, na valorização do que aqui é construído, porém, sabem eles que sua espécie beira a extinção em meio a ossos e dentes, ossos da miséria e dentes da ganância insaciável e descontente.
CAETANO ZAGANINI FILHO é professor de Filosofia e compositor em Londrina
Junção de masculino e feminino
A mulher é mais frequentemente movida pela intuição e pelo sentimento, atributos que também pertencem ao homem mas vieram perdendo intensidade nele. Um foco de divergências estabeleceu-se. Agora essa situação tende a alcançar um ponto de convergência harmônica - pelas novas leis em defesa da mulher e pela progressiva conscientização. Que precisa ser mútua, porque também a mulher deve saber que não pode extrapolar limites em sua luta reivindicatória e nem perder seu traço de feminilidade, porque é nele que reside o seu poder.
A era do separatismo e do arbítrio está acabando, e os agentes dessa transformação são os próprios cidadãos do mundo. Uma expansão das consciências, em todos os sentidos, vem ocorrendo. Toda mudança para melhor deve acontecer a partir de cada um, e assim os movimentos externos se formam e se corporificam. Uma só pessoa pode despertar uma multidão, e uma só nação pode mobilizar a humanidade inteira. O que agora acontece em pontos do mundo árabe é um exemplo.
No caso das dissidências pontuais existentes entre o homem e a mulher, há ainda resquícios de histórias cármicas, e é preciso transmutar isso. A questão não se restringe aos direitos da mulher mas tem a ver também com a libertação do homem face ao seu machismo nocivo. Porque ele é igual vítima de si mesmo ao permanecer acorrentado ao atavismo doentio que o impulsiona à dominação.
A necessária junção dos eus masculino e feminino não é apenas uma questão de democracia e de convivência entre sexos, mas transcende as leis conhecidas. É um exercício espiritual e significa reavivar o componente feminino do homem e o componente masculino da mulher - porque essa bipolaridade está presente em tudo que tem vida, e assim se estabelece o equilíbrio. A quebra desse princípio gera a desarmonia.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





