ESPAÇO ABERTO
O Evangelho da Alegria
A festa do carnaval é uma oportunidade de meditarmos sobre a alegria. O ser humano é a única criatura que tem a capacidade de sorrir. Tão grande é o poder do sorriso que abre mil portas. Sorrir é gesto de amor, que favorece a comunicação e torna o ambiente agradável e prazeroso.
As bem-aventuranças são o evangelho da alegria, o código da felicidade, a ética da realização humana. Jesus é nossa alegria porque perdoa os pecados, liberta os pobres, cura feridas, propõe horizontes novos, trouxe a melhor noticia - o amor de Deus e vence a morte.
Tão atraente é a alegria que os apóstolos sentam-se alegres por sofrer pela fé em Jesus Cristo. Por outro lado há uma alegria que o mundo não pode tirar, ou seja, a ressurreição do Senhor, a certeza do céu e a segunda vinda do Salvador. A oração é fonte de alegria, o perdão suscita alegria, o bem é o caminho da alegria e o dever cumprido faz brotar a alegria, que é dom.
S. Francisco de Assis falava da perfeita alegria que consiste em não perder a serenidade e a paz nas injurias e humilhações. S. Felipe Neri cultivou a espiritualidade da alegria através do bom humor e de coisas engraçadas para fazer os outros rirem e se alegrarem.
Alegria não é barulho, algazarra, gritaria, bebedeira, extravasamento. Alegria é dar sentido às coisas, ter profundidade, cultivar soluções e esperanças. Quanta alegria vem da misericórdia que consiste em pedir perdão e ajudar os necessitados. Deus é amor e humor. Quanto bem fazem os artistas, os palhaços, os que promovem a alegria. Deus ama a quem doa, ajuda, partilha com alegria. Deus é amor e humor. O filho pecador é recebido pelo Pai com alegria e festa.
Para o apóstolo Paulo a alegria era a comunidade unida. Pede que os cristãos trabalhem com alegria, evangelizem com alegria, perdoem com alegria, vivam o cotidiano com alegria. Ele sente alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas perseguições, nas necessidades porque nestas fragilidades ele percebe a força da graça e o poder de Deus. O reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Recomendava sempre: ''alegrai-vos com os que se alegram''.
O Documento de Aparecida tem um capítulo sobre a alegria de ser discípulo missionário. Fala de sete alegrias: alegria de sermos imagem e semelhança de Deus, fonte de nossa dignidade, a alegria de sermos chamados à vida, a alegria da convivência na família, a alegria que vem do trabalho como serviço à sociedade, a alegria das descobertas da ciência, a alegria do bem comum, a alegria de a América Latina ser o continente da fé e do amor.
Maria, mãe de Deus, é causa da nossa alegria. Ela recebeu o titulo de Nossa Senhora do Sorriso. Santa Terezinha transformou sofrimentos e tristezas em alegria. Elegeu a criança, o Menino Jesus como inspiração da alegria. Quer passar o céu fazendo o bem na terra. Nosso Deus é o Deus da alegria que no entardecer de nossa vida dirá aos que praticam o bem: ''entra na alegria do teu Senhor''. Cantemos ao Senhor com hinos de alegria.
Reza o salmista que ''quem semeia entre lágrimas, recolhe a cantar''. E ainda, Deus transforma desertos em fontes, farrapos em trajes de festa, espadas em enxadas. Até rios, campos, montanhas batem palmas porque tudo transborda de alegria. Eis, pois o evangelho da alegria. Mais impressionante ainda é o profeta Sofonias quando afirma que ''nós somos a alegria de Deus''. É bom lembrar a cada instante: ''eu sou a alegria de Deus'' e esta alegria é a nossa força.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





