Analfabetismo funcional: até quando?


O analfabeto funcional é definido pela UNESCO como todo indivíduo que sabe ler e escrever frases simples, efetuar cálculos básicos, mas não é capaz de interpretar o que lê e não consegue aplicar a leitura e a escrita em atividades cotidianas. Infelizmente essa é uma condição social que atinge grande parcela da população brasileira, 15% da população com idade entre 15 a 24 anos apresenta analfabetismo funcional, segundo dados do Indicador do Alfabetismo Funcional (INAF).
Os índices mostrados na mídia são os níveis de alfabetização alcançados na última década em nosso país, mas o recorte de uma população vislumbrando apenas a diferença entre alfabetizados e analfabetos é uma estratégia elementar que não considera o nível educacional das pessoas. Os analfabetos funcionais, embora saibam ler e escrever, apresentam dificuldades para compreender textos curtos e localizar informações, lidam com números como os de telefones e os preços, até realizam cálculos simples, mas seu desenvolvimento profissional fica emperrado diante de maiores necessidades no mercado de trabalho.
Os educadores alertam sobre o baixo nível educacional dos brasileiros, já que nossa atual política educacional tem primado pela quantidade a qualquer custo! É o que fica explícito na aprovação automática nas escolas públicas, os estudantes vão mudando de ano sucessivamente e, muitas vezes concluem o ensino básico sem a mínima noção do conteúdo científico que deveria ter sido apreendido durante os 08 anos de estudo. Desta forma, o resultado deste processo só pode ser uma enorme quantidade de analfabetos funcionais com diploma.
Acredito que o analfabetismo funcional seja bem mais abrangente em nosso país, já que, como educadora, considero analfabeto funcional todo indivíduo que se diz capaz de desenvolver suas funções no mercado de trabalho, porém são totalmente alienados em relação às questões culturais, políticas e sociais. Aqueles que aprendem a desenvolver determinada função técnica, mas não conseguem analisar criticamente temas emergentes em nossa sociedade atual, podem ser considerados analfabetos funcionais.
Um bom exemplo de nossa inclusão na parcela da população de analfabetos funcionais é quando permitimos que programas medíocres e pouco culturais sejam os campeões de audiência na televisão, até quando vamos tolerar que esse ''trash'' faça parte de nossos momentos familiares. Esses programas amplamente divulgados pela mídia tem se tornado nosso referencial de comportamento, norteando nossos relacionamentos afetivos, bem como instigando nosso padrão de consumo.
Para que ocorra uma transformação desta situação é necessário que a sociedade priorize o ensino com qualidade! Estratégias educacionais deveriam ser discutidas e medidas sensatas adotadas, pois não é apenas aumentando o ensino fundamental para 9 anos ou ampliando o horário escolar que teremos uma mudança de comportamento.
Uma peça importante para alcançar uma melhoria educacional significativa e diminuir o índice de analfabetos funcionais é o professor! Profissional responsável por impulsionar as crianças e os jovens a buscar novas maneiras de interpretar o mundo que os rodeiam. Nenhum esforço terá bons frutos se o professor não for valorizado pela sociedade! Devemos recuperar a dignidade daqueles que tentam proteger a cultura num mundo que desvaloriza aquilo que não é descartável!
CÉLIA FORNAZIERO é docente da Universidade Estadual de Londrina

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