ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Londrina, com todo mérito, poderia ser alcunhada, de aqui por diante, de terra da incongruência. Passamos por tempos nada amenos, nos quais a administração pública, e não apenas a municipal, aprofundam-se cada vez mais em terrenos pantanosos, dos quais não sabemos se haverá saída.
Exemplo disso são as atuais situações com a qual se deparam os cidadãos londrinenses. Em uma mesma semana, nos deparamos com situações no mínimo curiosas. É sabido que a dengue se espalha de forma assombrosa pelo município. Afora a clara irresponsabilidade dos cidadãos, que permitem a proliferação do mosquito ao não evitar que haja lugares para o mesmo se reproduzir, notamos a clara demagogia barata dos tempos de crise: ''medidas emergenciais estão sendo tomadas para sanar o problema''.
Quando tratamos de saúde pública, há problemas emergenciais em situações excepcionais. No entanto, o que Londrina vivencia é o resultado de uma falta de estrutura crônica em seu sistema de saúde, com postos superlotados, médicos escassos e mal remunerados, e funcionários públicos cuja estabilidade no cargo lhes confere uma lentidão inimaginável.
Ao mesmo tempo, são discutidas e sancionadas medidas cuja eficácia é motivo de dúvida. Nossa primeira inquietação refere-se a Lei Cidade Limpa, cuja proposta de padronização de fachadas de edifícios comerciais lesa os comerciantes em sua liberdade. Faz-se um estardalhaço a ponto de se ''estigmatizar'' os que ainda não haviam se adequado à medida. Também no rol das inutilidades públicas, deparamo-nos com a falaciosa redução da tarifa do transporte coletivo, cuja diferença será repassada aos bolsos das empresas através de recursos públicos.
Fica então a pergunta: em que ponto o consumidor realmente ganhou? Se o seu dinheiro dos impostos deixa de ser aplicado em serviços básicos mais necessários como a saúde, para continuar a engordar os cofres de paritculares, não há efetivamente nenhum ganho. Assim como também não há ganho com a liberação de recursos para a reforma da Câmara dos Vereadores em um momento no qual o erário público se faz mais necessário em outros setores.
Pensa-se, inclusive, no aumento do prédio para se poder abrigar um maior número de vereadores, já que a legislação permite que haja aumento chegando Londrina a 25 vereadores. Mas devo perguntar novamente: se os que estão trabalhando não resolvem os problemas municipais, para que mais? Qual o ganho real, se computarmos todos os débitos que tal aumento pode acarretar?
Creio firmemente que não é o número de parlamentares que fará a diferença no trabalho da Câmara, mas sim a disposição em se atentar para os problemas essenciais que afligem nossa cidade, tal como a extrema dependência do setor de serviços; da falta de investimentos produtivos, para que se aproveite a mão de obra qualificada que se forma aqui; da crise crônica que afeta a saúde, não apenas nos postos de saúde, mas em ações preventivas eficazes que permitam a profilaxia ao invés do tratamento; do recapeamento das ruas em estado singular na região da prefeitura, mas em completo abandono em áreas periféricas, nas quais os pés governamentais normalmente pisam apenas em épocas de eleições.
Essas incongruências, enfim, penalizam apenas a parte da população cujo único investimento que podem fazer é o pagamento de seus impostos, os quais infelizmente não retornam na forma de serviços de qualidades, mas sim em reformas esdrúxulas e leis demagógicas.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
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