ESPAÇO ABERTO
Caim e a sociedade cainita
Caim é o filho mais velho de Adão e Eva. A mãe bendiz a Deus pelo nascimento do filho. Ele devia cuidar do irmão por ser o mais velho, mas, o assassinou. A violência mais original é o fratricídio, a destrutividade social. Caim mata por ódio e inveja. É escravo da vingança e do derramamento de sangue. O irmão mais velho briga com o mais novo. Agiu assim porque não se sentiu amado, mas, rejeitado. Caim anda cabisbaixo. Pessoas não amadas são perigosas e violentas. A rejeição é um sentimento que gera muitos males. O rejeitado rejeita e ataca. Vemos que a violência existe não só por falta de pão e de justiça, mas também, de amor, afeto, ternura. A família bem estruturada que vive o amor, tem o poder de enfraquecer a violência e gerar fraternidade.
O pecado antifraterno de Caim quebrou e frustrou o relacionamento com Deus, com o próximo, com a terra e consigo mesmo. Ele passou a viver longe de Deus, expulso da terra, ameaçado de morte e oprimido pela culpa. É a total frustração. Assim é a sociedade cainita, onde não há fraternidade. A cultura da morte se impõe, entrando pela porta da falta de amor e conseqüentemente pelo caminho do ódio e da vingança.
Caim torna-se agressivo e depressivo, fugitivo e atormentado pela culpa. Quem não é amado não tem condições de ser fraterno. Agressão e depressão são realidades gritantes em nossa sociedade. Há um Caim dentro de nós. Sem a fé no amor de Deus, com baixa estima de nós mesmos, inveja dos outros, destruímos o cosmos, a terra. A violência na terra e na cidade é o sangue que clama aos céus. Caim deseja e pede que Deus o mate, que aplique contra ele a pena de morte. Deus não o ouviu mostrando que a misericórdia põe fim à violência e que o perdão é a porta para a fraternidade. O destino de Caim é o desterro, a fuga, o esconderijo. Onde não há amor fraterno há frustração e fracasso. No drama de Caim (Gn 4) aparece sete vezes a palavra ''irmão'' e a pergunta: ''Onde estás, que fizeste''? O outro é irmão e por isso é o centro, o principal, o primeiro, o importante.
Contra o outro e sem o irmão, somos tentados a justificar nossos erros, como fez Caim que respondeu a Deus: ''Por acaso sou guarda do meu irmão''? Ele se defende, se justifica. É egoísta. O outro que se dane. Deus que cuide dele se quiser. Culpados são os outros e o próprio Deus. A voz da consciência, porém, sempre irá repetir: ''que fizeste''? O sentimento de culpa doentio é causa de outros males como por exemplo, o alcoolismo, a dissipação, a farra, enfim, busca-se sedativos para esquecer o inesquecível.
Caim sente-se amaldiçoado. A atitude antifraterna e antissocial vai se desdobrar na questão da torre de Babel, portanto na confusão urbana. Sangue no campo, desagregação na cidade, conflito com Deus, culpabilidade doentia e destruição do cosmos são consequências da antifraternidade. Só uma sociedade fraterna, será uma grande família de irmãos e terá condições de ser justa e solidária. Nossos sistemas econômicos e políticos são em geral cainitas porque aumentam as distâncias sociais, geram fome, facilitando o espaço para as drogas, a violência, a cultura da morte.
A herança cainita está mais viva do que nunca e rompe com o projeto do reino que consiste em sermos filhos de Deus, irmãos dos outros, felizes conosco mesmo e zeladores da criação.
Jesus, nosso irmão, com seu sangue na cruz é a vitória definitiva sobre Caim. Nele podemos ser fraternos. Precisamos recomeçar a partir de Cristo Jesus numa grande aliança ecumênica e inter-religiosa, em parceria com as pessoas de boa vontade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





