Na franquia Star Trek, que conta com cinco séries, uma série animada e onze filmes (com o décimo-segundo em fase de produção), além de diversos livros e Histórias em Quadrinhos, um tema é recorrente: a necessidade de se manter o equilíbrio entre as forças nos quadrantes Alfa e Beta, politicamente divididos entre humanos, vulcanos (ambos membros da chamada Federação dos Planetas Unidos), romulanos, klingons e cardassianos. Estes grupos de humanóides poderiam representar os povos que, atualmente, disputam a hegemonia política na Terra. Assim como as nações atuais, esses grupos são marcados por diferenças étnicas, políticas e religiosas, o que exige um esforço ''sobre-humano'' para que o equilíbrio e a paz sejam mantidos. São vários os episódios que mostram a necessidade de realizar alianças e elaborar tratados, quando as partes se veem obrigadas a abrir mão de algo para que a paz seja mantida, sempre com papel central da diplomacia.
Vemos hoje a necessidade de as nações trabalharem com afinco para manter o equilíbrio no quadrante, assim como na série: humanos e vulcanos, estes lógicos e racionais, são aliados dos klingons. Porém, na primeira série, denominada de série clássica (que foi ao ar na época da chamada Guerra Fria), eram inimigos da Federação, representando os socialistas soviéticos. Já na última série da franquia, os inimigos eram os xindi, ''terroristas'' que atacam a Terra com um protótipo de arma, destruindo uma faixa da superfície do planeta, que vai da Flórida à Venezuela. A nave estelar Enterprise NX-01 teria a missão de impedir a construção de uma nova arma, ainda mais poderosa, que poderia aniquilar o planeta. A ficção aproxima-se da realidade, com a tripulação destruindo a arma (que, neste caso, existia) e realizando um acordo de paz, em nome do equilíbrio nos quadrantes. Os romulanos, grupo que divide seu DNA com os vulcanos, mas que possui diferenças significativas na organização sociopolítica e religiosa, juntamente com os cardassianos, grupo marcado pelo autoritarismo e militarismo, com tendência à conquista de novos territórios são os grandes desafetos da federação.
Qualquer semelhança com as nações do mundo árabe não é mera coincidência: afinal, hoje o equilíbrio no planeta depende da forma como entendemos e nos relacionamos com estes grupos. Será que estivemos tão preocupados com o Iraque, Afeganistão e Irã que fechamos os olhos para ditaduras que se mantinham há décadas, com o apoio da nação mais livre do mundo, e que agora explodem em manifestações e guerras civis como na Tunísia e no Egito? Por que será que aceitamos algumas ditaduras, e outras não?
Acredito que poderíamos nos espelhar na ficção, e buscar um equilíbrio baseado no respeito às diferenças étnicas e culturais, na busca pela igualdade de condições e de direitos, no respeito às nações e suas formas de organização e na liberdade de informações, para que possamos olhar um pouco além de nosso sistema solar. Deve-se considerar as nações em ascensão (que na série são representadas pelos bajorianos, que se recuperam de um processo de ocupação cardassiana; os ferenguis, grupo que se organiza a partir do comércio e nas regras de aquisição; e os andorianos, um dos fundadores da Federação e que, durante muito tempo, foram inimigos dos vulcanos; dentre outros). No mundo real, uma das potências em ascensão é o Brasil que não pode abrir mão de seu papel e deve assumir posicionamentos, mesmo que polêmicos, em nome do equilíbrio nos quadrantes.
Um elemento que demonstra o papel diferenciado que o Brasil vem ocupando é o fato de que, em filmes de Hollywood e séries norte-americanas, o país vem aparecendo como uma nação a ser lembrada e consultada. Exemplos são a série ''V'' e os filmes ''2012'' e ''Invasão do mundo, batalha de Los Angeles''.
LEANDRO HENRIQUE MAGALHÃES é coordenador-geral acadêmico da UniFil Virtual e coordenador de Extensão e Pesquisa da UniFil em Londrina

mockup