ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de fevereiro de 2011
Paulo André Chenso 
O cidadão brasileiro é uma figura de retórica - na prática, ele não existe. É fruto da construção histórica que justifica a República: antes, súdito; agora, cidadão. Se legítima fosse a República, além dos deveres, o cidadão teria direitos assegurados pela Carta Magna, esta quase sempre aviltada. Ocorre que, somando o despreparo intelectual da maioria da população à natural ignorância da lei, para cada direito pretendido o cidadão precisa de um advogado do lado! Até direitos elementares como saúde e educação lhe são negados.
Cada brasileiro, para satisfazer a anacrônica e imobilizante burocracia do país, precisa de uma verdadeira parafernália documental. Ela começa com a certidão de nascimento, passa pela de casamento, e se multiplica pelas inumeráveis carteiras disso e daquilo, sendo que, para cada passo que dá, precisa apresentar de 3 a 4 documentos. Considere-se, ainda, as comprovações de residência, endereço, emprego, etc. Todos com os indefectíveis reconhecimentos de firma, autenticação das assinaturas, etc.
Para cada coisa, um festival de carimbos e assinaturas. Tudo para a felicidade geral dos cartórios. Com essa avalancha de exigências mantemos a ciclópica burocracia que atrasa o país e martiriza o cidadão, mas que é o sustentáculo maior do atual sistema de governo. Eliminem a burocracia, e o governo quebra!
Em certos casos a burocracia é tanta, e tão confusa, que o cidadão acaba contratando um advogado. Enquanto isso, impostos escorchantes fazem evaporar todos os meses, como uma mágica satânica, a metade do salário ganho a duras penas, devorado pela ganância pantagruélica de um sistema tributário medieval que faz do Brasil o campeão mundial de tributação com 80 tipos de impostos diferentes (Cartilha da Federação das Indústrias do Paraná).
Essa verdadeira ''derrama'' tem um só fim: manter uma máquina pública lubrificada com a corrupção e dirigida pela concupiscência. Curiosamente, quando você precisa do Estado, ele misteriosamente desaparece da sua vida. Saúde decente? Pague um plano! Aposentadoria digna? Pague uma privada! Escola de bom nível para os filhos? Pague uma particular! Enquanto isso, o erário é dilapidado no acobertamento dos erros e crimes de membros do governo e no sustento da vaidade narcísica daqueles que dizem dirigir a Nação.
Submetido diuturnamente aos mais variados maus-tratos - como filas para documentos, filas no banco, filas nos postos de saúde para garantir uma consulta, quem sabe daqui a meses, filas em escolas com pais dormindo nas calçadas ao relento para ''garantir'' uma vaga para o filho, se aguentando com um salário mínimo no mínimo miserável, - o pseudocidadão timidamente baixa a cabeça e vai em frente lutando contra o fantasma da insensibilidade governamental.
Há séculos a França vivia algo parecido: rei, nobres e aristocratas, enfurnados nos palácios (como aqui), num ócio patológico e permanente culto da personalidade, enquanto esfolavam vivos os franceses em impostos esmagadores. Deu no que deu! A sorte de nossos governantes é a passividade ovina de nosso povo.
Como explicar que a oitava economia do mundo, membro do G-20, seja o 75º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)? Por que nossos índices educacionais estão sempre entre os piores do mundo? Por que nossa saúde vive este caos eterno? Com tanto dinheiro deveríamos estar pelo menos entre os 20 melhores IDHs. Mas não estamos! Somos assaltados todos os dias! Não somos cidadãos. Pior que súditos, somos tratados como servos! Enquanto isso, um parlamentar custará ao pseudocidadão, anualmente, mais de R$ 1 milhão! Se esse fosse realmente um país sério, o primeiro a ir para cadeia seria o governo!
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina


